Quadrinhos além das bancas

21 abr

(escrito no primeiro bimestre de 2009)

São Paulo é conhecida por sua abundante oferta de arte e entretenimento, inclusive para atividades gratuitas ou a preços populares. As histórias em quadrinhos não estão fora disso. É comum que associemos, num primeiro momento, as HQs às bancas de jornal, que trabalham com edições do mês ou, no máximo, do mês passado. É frequente encontrarmos em sua prateleiras publicações de super-heróis, mangás, personagens da Turma da Mônica e da Disney, além do clássico Tex.

Hoje em dia, muitas livrarias já dispõem de espaço dedicado ao segmento. Edições nobres, com capa dura e papel sofisticado, costumam ocupar boa parte da seção, ao lado de outros volumes importados, enciclopédias do gênero e grandes clássicos, como Calvin & Haroldo, Snoopy e Mafalda.

Só com essa variedade de títulos, a entrada no mundo dos quadrinhos estaria garantida a qualquer curioso pelo que chamam de “nona arte”. Mas ainda seria pouco para conhecê-la bem e, felizmente, sobram opções que podem ser utilizadas com esse intuito. Todavia, são opções mais obscuras do que gostaríamos, sendo necessário alumiar o caminho para os que querem se aventurar neste vasto universo.

Lojas especializadas

Existem estabelecimentos pela cidade que são dedicados unicamente aos quadrinhos. Seus acervos costumam ser impressionantes em relação a uma banca ou a uma livraria, contendo desde ícones da produção internacional (não apenas norte-americana) até títulos nacionais independentes e pouco conhecidos.

Uma das maiores representantes deste gênero é a Devir. A loja iniciou suas atividades em 1987 como importadora de gibis e mais tarde passou a também publicar artistas internacionais como Alan Moore, Frank Miller e Garth Ennis no Brasil, além de lançar inéditos de quadrinistas nacionais, como Angeli, Lourenço Mutarelli e  Fernando Gonsales. Paulo Roberto Silva Júnior, gerente de produtos da Devir, afirma que os importados já não são o carro-chefe da empresa há alguns anos. O atraso entre a publicação no exterior e aqui diminuiu muito após a Panini assumir as revistas de Marvel e DC, reduzindo a espera por lançamentos, que chegava até a quatro anos, para apenas um mês.

Outro grande estabelecimento do ramo é a Comix. Ela começou como uma banca especializada da Alameda Lorena, no Jardim Paulista, e com o tempo abriu uma loja na Alameda Jaú, a poucas quadras dali. A Comix é responsável pela maior feira de quadrinhos do país, a Fest Comix, realizada anualmente no Centro de Eventos do Colégio São Luís. Na feira, são vendidos diversos produtos relacionados a HQs (miniaturas, camisetas, jogos) e ocorrem palestras com especialistas e celebridades do meio. Vale ressaltar que a Devir também organiza a Maratona HQ, evento em que fica aberta durante 42 horas consecutivas em um fim de semana. Também ocorrem vendas com grandes descontos, além de atividades, palestras e oficinas relacionadas com HQ.

Sebos especializados

Se o cheirinho de novo não for essencial, existem sebos pela cidade com ótimas opções de quadrinhos usados. O maior nome nessa categoria é a Rika, direcionada unicamente para quadrinhos. Reunindo atualmente mais de 45 mil volumes, a loja, trazida de Curitiba para São Paulo em 2004, preza pela organização e conservação de suas revistas. Um representante chegou a mencionar que parte do acervo, que não se encontra mais em condição de venda, é doada para gibitecas. Todas as negociações se baseiam em cotações rígidas de mercado e são feitas tanto pessoalmente quanto por internet, onde compradores do exterior também fazem seus pedidos. Os gibis com mais saída são os de super-heróis que foram publicadas pela Abril entre 1979 e 2002.

O Esconderijo dos Heróis é outro sebo de tradição no ramo dos quadrinhos. Atualmente com mais de 20 mil volumes, o Esconderijo começou em 1979, vendendo apenas usados, e ficou por cerca de 25 anos em frente à Agência Central dos Correios, no Anhangabaú. Há 11 anos, a chefia abriu também uma loja, que atualmente abriga todo acervo que era da banca também, agora desativada em função das medidas da atual administração municipal. A prefeitura realizou uma ação de “remanejamento”, principalmente na região central, e os mais afetados foram os que comercializavam gibis usados. Helena Hild Filha, atual dona do Esconderijo, disse que suas vendas foram prejudicadas, pois no meio da rua era mais fácil o consumidor ver algo de relance e comprar. Agora situados dentro de uma galeria, eles estão (ironicamente) mais escondidos. Helena comenta que a melhor saída também é de super-heróis antigos, mas Panini também tem boa procura.

Gibitecas

Se a intenção é não gastar nenhum centavo, não há problema: as gibitecas também estão bem representadas na cidade. A mais tradicional de São Paulo é a Gibiteca Henfil, atualmente localizada no Centro Cultural São Paulo, ao lado do Metrô Vergueiro. Inaugurada em 1991, ela começou como um pequeno espaço na Biblioteca Juvenil Viriato Correa, que foi sendo ampliado devido à ótima aceitação dos moradores da região. Em seu início, a Henfil contou com a ajuda de doações de sebos, bancas e cidadãos para compor seu acervo. Nesta época, a gibiteca chegou à marca de 2 mil carteirinhas de sócios que retiravam revistas. Em 1999, quando mudou para o CCSP, aumentou de tamanho, mas o público diminuiu. Yara Afonso, funcionária desde a fundação, acredita que isso ocorreu pelo distanciamento do público cativo que tinha sido criado na região anterior. A pulverização do público pela abundância de atividades no CCSP é outra hipótese.

Sobre os hábitos dos frequentadores, Yara comenta que é muito fácil ver adultos consultando Disney e Turma da Mônica, enquanto o público infantil costuma se interessar mais por super-heróis. Embora as estimativas indiquem 120 pessoas por dia em média, a gibiteca tem passado por dificuldades. Após mudar para o CCSP, ela foi mudada de seu espaço original para dentro da biblioteca local e agora está sendo novamente movida para o lugar onde antes era a Biblioteca Volpi, especializada em artes. Esta última relocação fará com que parte do acervo seja removido, mais especificamente a parte em língua estrangeira, por ter pouca procura. A informatização da coleção também está sendo discutida. Por enquanto, todos volumes únicos ou raros são guardados numa estante liberada apenas para consulta local com apresentação do documento. Os demais volumes estão disponíveis para qualquer um ler na hora, e caso seja cadastrado, retirar por até sete dias.

Outra boa gibiteca que temos na cidade é a do Sesi, que inicialmente se localizava no prédio da Fiesp, na Avenida Paulista, e foi movida em 2006 para o Centro Cultural do Sesi, na Vila Leopoldina. Segundo Evelyne Lorenzetti, assessora de imprensa do Sesi, a mudança se deu por já existir uma grande oferta de cultura na Paulista, enquanto na Vila Leopoldina, a Gibiteca, junto com  a Biblioteca do Sesi, se transformou na primeira grande opção cultural da região. Evelyne acrescenta que o público do Centro Cultural do Sesi é formado majoritariamente por trabalhadores da indústria, cumprindo assim a iniciativa original que é fornecer cultura a esse público. O acervo da Gibiteca do Sesi conta com 12 mil exemplares e há uma média diária de 80 visitantes, contando junto com os usuários da Biblioteca. Lá ocorrem eventos mensais, sendo que o de abril foi um workshop sobre desenho de mangá.

Devir

Comix

Rika

Esconderijo dos Heróis

Gibiteca Henfil

Gibiteca do Sesi

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