Tom de homenagem prejudica O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus

19 abr

(crítica publicada originalmente no Fino da Mostra, em outubro de 2009)

Terry Gilliam é um cineasta brilhante. Além de seu currículo contar com direção, atuação e animação em comédias do Monty Python, ele dirigiu duas das melhores ficções-científicas já realizadas (Brazil e 12 Macacos) e outros longas que adquiriram status de cult, como Medo e Delírio. No entanto, o que se vê em O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus é majoritariamente um réquiem de luxo para Heath Ledger. O talentoso ator faleceu durante as filmagens e ficou imortalizado pela sua atuação como Coringa, em Batman: o cavaleiro das trevas, lançado já postumamente.

O filme mostra o duelo milenar entre Parnassus (Christopher Plummer) e o Diabo (Tom Waits) chegando a um momento crítico: a filha do primeiro deve ser entregue ao segundo, em função de uma barganha feita num passado remoto. Em meio a isso, surge uma misteriosa figura com amnésia (Ledger) que, aos poucos, se mostra disposta a ajudar o doutor a virar o jogo e não perder sua filha.

Uma premissa tentadora, um elenco fabuloso e efeitos especiais estonteantes. Com todos esses recursos em mão, por que Gilliam não conseguiu tornar Parnassus em mais um de seus clássicos?

Antes de tudo, é triste ver a transição artística que Gilliam fez, hoje lembrando muito mais um genérico de Tim Burton do que um genial produtor de cenários distópicos. Seus filmes dos anos 1980 e 1990 forneceram inspiração para a próxima geração de diretores, destacadamente a produção noventista de Jean Pierre Jeunet. Além disso, nem mesmo o timingde certas cenas parece certo, sobretudo as que contêm Ledger.

Falando nele, cabe a hipótese de não ter havido tempo para fazer os takes definitivos antes de sua trágica morte. Mas isso não justifica que certos momentos pareçam mais laboratórios de atuação do que cenas sérias. Recentemente, Gilliam execrou a teoria de que a imersão de Ledger no personagem Coringa teria sido a principal razão da morte do jovem ator, afirmando que existia um bom clima durante as filmagens de Parnassus. Todavia, é inegável: existe um mau desempenho inicial do ator que pode ter relação com a ingestão abusiva de remédios que, posteriormente, o levou à morte. Em tempo, deve-se admitir que, com o passar da história, parece que Ledger vai ficando mais à vontade, conseguindo desenvolver bem as características de seu personagem, com destaque para o notável sotaque britânico.

Méritos à parte, as atuações que ficarão marcadas na memória são as dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, que substituíram Ledger nas cenas que ele não teve tempo de encenar (em sua maioria, partes com computação gráfica). Todos fazem atuações marcantes e nitidamente preocupadas em serem fiéis à visão que Ledger tinha do personagem.

Saindo das questões de elenco, a trilha sonora escorrega ao não respeitar bons ganchos para silêncio e complementar de forma burocrática diversas passagens. Os momentos em CG (nos quais pessoas passam pelo espelho mágico de Parnassus) são dalinianos e grandiosos, mas não aparecem de forma homogênea com o resto da película, resultando também numa desproporção incômoda.

Por mais que a produção tenha sido cancelada e depois retomada por Gilliam, ainda permanece a sensação de que ela está incompleta. Desde a poética aparição inicial de Ledger, em que está morto e revive, até os créditos finais que indicam que o longa foi realizado por “Ledger e amigos”, tudo parece comprometer a independência da obra, mostrando-a refém de seus fatos exteriores – e é isso que perturba. Ele insiste, intencionalmente ou não, em ser uma constante homenagem em vez de ser o grande filme que poderia ser. Trata-se da despedida mais lírica e emocionante que o Cinema poderia dar a Ledger, mas ainda assim, é uma pena que isso tenha impedido que a história fosse contada impecavelmente, como é do feitio de Terry Gilliam.

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