Neubauten e os supporters: um novo grau de interação entre fã e artista

17 abr

(publicado originalmente numa versão anterior do Gotas, em setembro de 2009)

Neubauten ensaiando com supporters em novembro de 2004 (Markus Vortkamp)
Einstürzende Neubauten ensaiando com supporters em novembro de 2004 (Foto: Markus Vortkamp)

O crescimento do mp3 nos últimos anos, como formato dominante de música, tem feito a indústria fonográfica passar por uma queda vertiginosa de vendas. Trata-se de uma crise sem solução fácil para as gravadoras e a falta de perspectiva faz vários artistas procurarem novas estratégias de marketing.

Quando o Radiohead lançou In Rainbows, em outubro de 2007, em versão digital e independente, sugeriu que as pessoas pagassem a quantia que quisessem pelo álbum. Atualmente, a banda mostrou interesse em seguir a carreira lançando apenas EPs (discos de curta duração) ou faixas soltas. Billy Corgan, mentor do Smashing Pumpkins, também mostrou interesse em não lançar mais álbuns, justificando a decisão pelo fato das pessoas só se interessarem pelos hits, graças à facilidade trazida pelos iPods.

Podemos ainda somar essa tendência do fim do CD ao surgimento de sites de relacionamento como o MySpace. Por meio deles, bandas já consolidadas encontram canal de contato mais próximo dos fãs, enquanto grupos independentes podem divulgar seu trabalho numa relação sem maiores filtros ou intermediários.

Mesmo diante deste panorama, um dos exemplos mais extremos e curiosos de modificação na forma de consumo de música foi o da banda alemã Einstürzende Neubauten. Formada em 1980 por Blixa Bargeld e N. U. Unruh, ela ficou conhecida pela utilização de instrumentos atípicos, sendo comum o uso de latões, martelos, sucata e esmeris em suas apresentações. O conjunto uniu desde o início a atitude cáustica do punk rock a uma influência da música erudita concreta, que buscava criação sonora com elementos do cotidiano.

No documentário 20 anos de Einstürzende Neubauten: Escute com Dor (2000), exibido apenas em mostras no Brasil, é possível ver o ressentimento do coletivo quanto à falta de retorno financeiro de seus álbuns. Maus acordos com gravadoras fizeram com que tivessem pouco lucro em seus esforços. É possível que essa tenha sido a maior razão para terem mergulhado, por mais de cinco anos, no entitulado “Supporters Project”.

Iniciado em 2002, o projeto requisitava, através do site neubauten.org, que os fãs interessados pagassem uma quantia periódica e fossem os únicos patrocinadores do grupo pelo tempo do experimento. Esse mecenato coletivo excluiu todos intermediários comuns, com seus empecilhos, filtros e custos, trazendo benefícios incomuns aos seus contribuintes.

Os supporters, durante esse período, puderam acompanhar ensaios da banda por internet (e pessoalmente, em algumas ocasiões), tiveram sessões de chat exclusivas com o grupo e ganharam todos os álbuns realizados no período (cerca de dez CDs). O auge da experiência foi o momento em que cem dos membros foram selecionados para formar um coro, que ensaiou com o conjunto por um tempo, e se apresentou com ele no Palácio da República, em 2005. Na ocasião, foram apresentadas composições novas e versões de antigas com os fãs soltando a voz.

O projeto foi encerrado, como previsto, em outubro de 2007. A mesma iniciativa pretende agora fazer ações semelhantes com outros grupos. Um dos maiores indícios de que a experiência foi bem sucedida, e levou esses fãs a um novo patamar de interação com seu ídolo, é a criação de um álbum dos próprios supporters. Eles aproveitaram o canal que tinham em comum e fizeram uma banda para suas próprias músicas, independentemente do Neubauten – que os juntou em primeiro lugar.

Uma manifestação dessas é exemplo claro do quanto a internet pode reduzir distâncias, enriquecer o debate, queimar intermediários e filtros, e aumentar a chance da produção de bom material artístico pela convergência de intenções e opções estéticas. Cada supporter teve a possibilidade de experimentar uma relação mais direta com o artista, ao invés de entendê-lo à distância e de forma romantizada, tendo até a oportunidade de participar ativamente do processo criativo, além de sair dele também como criador.

Todavia, é preciso salientar que existem certos problemas no processo. Alexander Hacke, baixista do grupo, comentou sobre o quanto é exaustivo esse tipo de dedicação, muito menos passiva para os dois lados. No aspecto monetário, não houve grande diferença em relação às produções com gravadoras, embora o Neubauten tenha apelado em certos momentos para vídeos na internet pedindo mais desses patrocinadores físicos, para conseguir concluir o projeto. Fica a dúvida sobre o quanto a iniciativa funcionaria em bandas das mais diversas atitudes e com outros tipos de público.

Não se pode negar, no entanto, que interessantes iniciativas no ramo artístico estão sendo possíveis, graças à sofisticação da rede, e cada vez mais, novas ideias, como o inovador processo vivido pelos supporters, tendem a ir moldando qual será o novo paradigma de consumo de arte nesse século.

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