No Olho da Rua

11 abr

(crítica originalmente publicada no Cineclick)

No Olho da Rua

Não há dúvida que o maior defeito do longa No Olho da Rua seja sua extemporaneidade. O filme que marca a estreia do diretor Rogério Corrêa em longas-metragens foi idealizado em 1994, quando o país saía do desastroso governo Collor e vivia uma realidade marcada pelo desemprego e inflação alta. De lá pra cá muita coisa mudou na conjuntura econômica e política brasileira, mas o filme – de ambientação contemporânea – retrata o caos do desemprego tal como observado na década de 1990.

No Olho da Rua se passa no universo metalúrgico da região do ABC, na grande São Paulo, e mostra um movimento sindical que já não possui a mesma força de luta de antes. O personagem principal é o metalúrgico Otoniel Badaró (Murilo Rosa), demitido da fábrica onde trabalhou por 20 anos após a chegada de novas máquinas. Ele luta por um novo emprego enquanto faz o possível para manter sua vida pessoal intacta. No entanto, não consegue frear a queda gradual em sua qualidade de vida, experimentando a cada dia um novo fundo do poço.

Embora os problemas tratados no longa não estejam erradicados, a realidade atual de euforia com os rumos da economia do país não condiz com as situações e conflitos retratados no filme. Em determinado momento, Otoniel bate um jornal no peito de seu amigo avisando que Ronaldo Fenômeno acaba de ser contratado pelo Corinthians. A cena marca a época do longa, mas o pano de fundo de desemprego e crise econômica não se alinha com esse tempo.

De resto, sobram certos pecados ao longa. Algumas cenas cruciais, como aquela em que Otoniel está bebendo em um bar e vemos, ao mesmo tempo, sua esposa sozinha em casa prestes a dar à luz, não têm o ritmo necessário para alcançar grande impacto dramático. Outras parecem estar deslocadas, como alguns dos momentos de humor protagonizados pelo personagem Algodão (Leandro Firmino da Hora), que são divertidos, mas estão encaixados de forma confusa no filme, que esbanja um tom pessimista não-condizente com essas sequências.

Mas No Olho da Rua não merece ser demitido por justa causa. Corrêa o conduz com coerência e agilidade na maior parte do tempo. O elenco consegue atingir bons momentos, embora pudesse render mais. Talvez um melhor trabalho de preparação de atores ajudasse a remover a artificialidade de certos diálogos e situações. O próprio Murilo Rosa não escapa disso, apesar de estar bem em algumas cenas, como quando se percebe vivendo debaixo de uma ponte. Aliás, São Paulo abriga a história, mas não chega a aflorar sua identidade no longa, com pouca exploração dos ambientes despidos de seus personagens.

A demora na captação e execução de No Olho da Rua – adversidade que afeta diversas produções nacionais – foi o calcanhar de Aquiles do filme, que ficou com sua relevância e atualidade postas em xeque.

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