Lee Ranaldo entre os tempos e as marés

8 abr

(originalmente publicado no Obvious)

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Poucos títulos poderiam ser tão apropriados quanto o que Lee Ranaldo escolheu para seu novo disco. Between the Times and the Tides é o primeiro lançamento do guitarrista nova-iorquino após o anúncio de recesso do Sonic Youth, banda em que toca desde 1981. O divórcio entre Thurston Moore e Kim Gordon, também membros do grupo, motivou a pausa em novembro de 2011. Felizmente, Lee tinha material engatilhado e nem deixou o hiato ser sentido, lançando-o neste momento divisor de águas, pouco após a triste notícia. Aliás, sobre o álbum, existem más e boas novas.

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Fãs da banda se sentirão aliviados ao escutar Waiting On a Dream, primeira faixa do disco. Quem ouviu os álbuns solo anteriores de Lee pode estar esperando uma série de ruídos intermináveis e prolongadas seções incômodas, mas o que há aqui é uma canção que poderia facilmente estar num álbum do SY. A guitarra característica de Lee, a bateria (tocada pelo próprio Steve Shelley do Sonic Youth) priorizando tambores em sua marcação, a voz acompanhando a melodia… tudo remete ao conjunto. Falando no aspecto vocal, todos que cantavam no Sonic entoavam suas letras de forma blasé ou descuidada, mas Lee era o que usava sua voz de forma mais amelódica. Por vezes, era como se recitasse, quase se desprendendo da tonalidade e do ritmo – e, embora ele se esforce um pouco mais na interpretação aqui, ainda não está tão diferente assim.

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É a partir da segunda faixa, Off The Wall, que a maior surpresa no álbum passa a ficar mais nítida: a grande preocupação com a composição de boas canções mais acessíveis. Se a produção independente anterior de Ranaldo sugeria que ele fosse um dos membros mais favoráveis ao experimentalismo no SY, este disco nega isso de forma veemente. Existem timbres e levadas que sugerem sua obra com o grupo, mas no todo, a impressão é de estar diante de um cancioneiro do underground norte-americano, tão interessado no rock quanto no folk e até no country – mas com personalidade, aí sim esculpida em seus anos de Sonic Youth.

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Em geral, Between the Times and the Tides vai na contramão da dissonância e das estruturas incomuns, presentes em muitas músicas do SY. A sensação de mal-estar, confusão, agonia e incerteza deixam lugar para uma escuta mais descompromissada, positiva, leve e prazerosa. O toque indie nessas composições parece alinhar Ranaldo mais a Michael Stipe e seu R.E.M. que ao Sonic Youth.

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Tudo isso faz pensar sobre o quanto a contribuição melódica no Sonic Youth já vinha de Lee. Ficou evidente que o músico tem esse talento para canções mais convencionais e gentis com o ouvido. Ainda há destaque para a guitarra, mas não para seu aspecto punk e vanguardista. É possível interpretar essas faixas com violão e voz, obtendo resultados muito semelhantes aos do próprio disco. É possível lembrar e cantarolar boa parte dessas melodias após finalizar a escuta de Between the Times and the Tides. Aliás, há um exemplo bem concreto para entender esse momento de transição na carreira de Lee: a oitava faixa, Shouts, tem uma parte A que parece demais com o que o SY faz, enquanto a parte B jamais entraria num álbum deles. Um ouvinte incauto, julgando estar ouvindo a própria banda, certamente franziria a testa com desgosto durante a passagem.

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Se era esse tipo de som que Ranaldo vinha compondo em casa, essa suspensão momentânea da banda foi providencial. Será bom para todos que ele aflore esse lado mais folk no qual mostra grande potencial – mas ainda está cru. As canções em Between the Times and the Tides são boas, mas não estão no estágio ideal de concepção. Elas carecem de partes mais memoráveis, tocantes e arrebatadoras, como as dos grandes compositores do estilo. Gostaria que o SY continuasse produzindo coletivamente, mas se não for o caso, suponho que Lee só tem a melhorar sozinho, trilhando caminho em busca de sua própria singularidade.

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Fãs mais ardorosos do Sonic Youth certamente gostarão do álbum, mas aqueles que gostarem apenas de seus hits, que costumam valorizar bem o que há de mais caricatural na banda, dificilmente vão encontrar sentido em Between the Times and the Tides. Arrisco dizer que ele é mais ameno e plácido que qualquer disco que o SY tenha lançado.

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