Os discursos mais memoráveis do Oscar

7 abr

(matéria feita em janeiro de 2011, originalmente publicada no Cineclick)


Ansiedade. Importantes concorrentes. Um trabalho exaustivo com grandes chances de ser imortalizado. Tudo está a um envelope de ser dito. E é seu nome. As palmas vêm e então é o seu momento de agradecer, chorar, desabafar e dizer a todos o que você sente. É pelo seu filme e por aquelas palavras que você será lembrado eternamente.

Os discursos no Oscar costumam proporcionar momentos emocionantes, polêmicos e, algumas vezes, hilários. E o que não falta são discursos memoráveis na história dos prêmios dados pela Academia.

Um discurso marcante foi o de John Wayne, após ganhar o Oscar de Melhor Ator por Bravura Indômita (1969). Além de abri-lo com uma piada sobre o tapa-olho que seu personagem usou no filme (“se eu soubesse que ganharia isso, vestiria ele 35 anos mais cedo!”), o ator mostrou serenidade em sua fala, agradecendo não só os membros da equipe que o tinham ajudado, mas se direcionando aos telespectadores da premiação, numa atitude raríssima, para agradecer diretamente as plateias que prestigiavam a indústria do cinema.

Nem sempre os atores tem essa capacidade de sintetizar tão bem o que querem dizer em meio a tanta emoção. Joe Pesci, ao subir para pegar seu prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por Os Bons Companheiros, abaixou a cabeça, suspirou e, nitidamente emocionado, disse apenas: “O prazer é meu, obrigado”. Bem distante de sua concisão, a atriz Greer Garson levou mais de uma hora para finalizar seu discurso de agradecimento em 1943, ao levar a estatueta de Melhor Atriz por Rosa de Esperança. Na época, ainda não havia um limite de tempo para os agradecimentos.

Certas vezes, a emoção é tanta que os astros não conseguem se conter. É difícil esquecer as estripulias de Roberto Benigni ao amealhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por A Vida é Bela. O cineasta não se conteve e começou a andar por cima das cadeiras dos convidados enquanto comemorava e agradecia quem estava por perto. Seu discurso, feito em um inglês caprichosamente atrapalhado, por vezes lembrou um show de stand-up comedy.

O que dizer então de Adrien Brody que, extasiado, subiu não para pegar seu troféu (por O Pianista), mas sim para pegar Halle Berry em seus braços e dar um beijo genuinamente cinematográfico? Seu discurso foi ainda mais curioso. Ele disse que nem lembrava seu próprio nome e soltou a pérola: “Há um momento na vida em que tudo parece fazer sentido… Esse não é um deles.”

Momentos engraçados em discursos não faltaram, fossem os planejados ou os espontâneos. Ao ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Charlie Kaufman ficou avisando aos telespectadores quantos segundos faltavam para o fim de seu discurso segundo o teleprompter. “Isso intimida muito, vou tentar olhar para outro lado”, comentou o roteirista. John Dykstra, ganhador do Oscar de Melhores Efeitos Visuais por seu trabalho em Homem-Aranha 2 comentou aliviado: “Cara, ainda bem que não houve um quarto episódio de O Senhor dos Anéis.” Kim Basinger disse que queria agradecer todas as pessoas que conheceu em sua vida toda, Shirley McLaine fez um discurso humilde fechado com um “diabos, eu mereço isso” e Sally Field desabafou, ao ganhar seu segundo Oscar: “Eu não posso negar o fato de que vocês gostam de mim; neste momento, vocês gostam de mim!”

No caso de Louise Fletcher, que levou a estatueta por sua performance em Um Estranho no Ninho, o agradecimento foi diferente: “Tudo que eu posso dizer é que amo ser odiada por vocês”, se referindo à enfermeira rígida e severa que interpretou no filme.

Para quem não ganha, alguns discursos funcionam como um prêmio de consolação enquanto não chega sua vez. Michael Caine, ao ganhar a estatueta pela segunda vez, por Regras da Vida, decidiu frisar que não se sentia um vencedor naquele ano, devido à qualidade do trabalho de seus concorrentes (no caso, Tom Cruise, Michael Clarke Duncan, Jude Law e Haley Joel Osment).

Martin Scorsese certamente devia se sentir assim. Indicado a seis Oscar antes de finalmente ganhar por Os Infiltrados, em prêmio entregado por seus amigos Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, ele comentou que não aguentava mais as pessoas dizendo “você deveria ganhar um”. No ano em que o cineasta concorreu por O Aviador e perdeu a estatueta para Clint Eastwood, Cate Blanchett dedicou o final de seu discurso a ele: “… principalmente, obrigado para Martin Scorsese – eu espero que meu filho se case com sua filha.”

O diretor de Touro Indomável participou de um dos momentos polêmicos da história da cerimônia: a entrega do Oscar honorário para Elia Kazan. Após ser apresentado por Scorsese e Robert De Niro, Elia Kazan foi recebido com poucas palmas e alguns presentes ficaram de cara fechada e não se levantaram para saudá-lo. Isso se deve ao seu apoio ao senador McCarthy, que envolveu a delação de colegas, algo que nunca foi bem aceito por parte significativa da comunidade de Hollywood. Charles Chaplin foi um dos cineastas que sofreu com o macartismo, tendo que permanecer fora dos Estados Unidos por duas décadas, antes de retornar para receber um Oscar honorário. Na época, Chaplin fez discurso emocionado com a homenagem e sem mencionar nenhum assunto político.

É provável que a polêmica mais memorável e excêntrica da história dos discursos do Oscar tenha ocorrido em 1972, quando Marlon Brando enviou a índia apache Sacheen Littlefeather para recusar seu prêmio de Melhor Ator por O Poderoso Chefão. Após o anúncio, feito por Roger Moore e Liv Ullman, Sacheen pronunciou que não poderia aceitar o troféu “generosamente concedido” pela Academia em função do tratamento que a indústria do cinema dispensava aos índios norte-americanos. Ele tinha aceitado a estatueta anteriormente por Sindicato de Ladrões, filme de Kazan.

O diretor Michael Moore também protagonizou um dos momentos mais rebeldes dos discursos do Oscar. Ele disparou impiedosamente contra o presidente George W. Bush quando ganhou o Oscar de Melhor Documentário por Tiros em Columbine, dizendo que ele deveria se envergonhar por ser “um presidente fictício, eleito por uma eleição fictícia”. Sean Penn, como de costume, também não se conteve quando ganhou o prêmio de Melhor Ator por Milk – A Voz da Igualdade e disse que aquele momento era “uma boa chance para aqueles que votaram contra o casamento gay sentarem, refletirem e anteciparem sua grande vergonha e a vergonha nos olhos de seus netos”.

Tom Hanks também aproveitou para fazer um discurso em prol dos homossexuais ao ganhar Melhor Ator por Filadélfia, lembrando tanto um professor quanto um colega, ambos da época em que estudou artes cênicas, que eram gays e foram alguns dos “melhores homens” com quem teve a honra de conviver. Dustin Lance Black, roteirista de Milk – A Voz da Igualdade e ganhador de Melhor Roteiro Original, também falou sobre o quanto a história de Harvey Milk o inspirou a assumir sua sexualidade e acreditar que um dia iria se apaixonar e poder se casar.

O Oscar também foi um grande palco para a valorização dos negros a cada indicação e vitória. Halle Berry chorou copiosamente desde que seu nome foi anunciado como Melhor Atriz por A Última Ceia e Cuba Gooding Jr. comemorou como uma criança até contagiar todo o público presente no Kodak Theatre, após ganhar Melhor Ator Coadjuvante por Jerry Maguire – A Grande Virada.

Jamie Foxx também fez discurso memorável ao ganhar o prêmio de Melhor Ator por Ray, falando sobre como iria comemorar com sua falecida mãe em seus sonhos. Foi possível assistir Denzel Washington ganhando sua segunda estatueta por Dia de Treinamento e dialogando com Sidney Poitier, primeiro ganhador negro do Oscar de Melhor Ator por Uma Voz nas Sombras. Durante seu discurso, um mostrou sua estatueta ao outro – Poitier ganhava um Oscar honorário na ocasião.

Ainda assim, o destaque fica para Hattie McDaniel, de … E o Vento Levou, primeira estrela negra a ganhar um Oscar, em 1940. Após agradecer a Academia e dizer que aquele era um dos momentos mais felizes de sua vida, Hattie disse que esperava sinceramente que seu nome ficasse como um exemplo para os negros e para a indústria do cinema. Após dizer que seu coração estava muito cheio, saiu limpando as lágrimas com um lenço agradecendo a todos.

A questão dos judeus também foi trazida à tona, tanto no discurso de agradecimento de Steven Spielberg por A Lista de Schindler quanto pelos protestos que Vanessa Redgrave teve que aguentar de uma plateia furiosa após elogiar os palestinos em 1978, quando ganhou o Oscar por sua interpretação em Julia. Mas a lembrança maior nesse tópico ficou por conta da inefável declaração de Gerda Weissmann Klein, sobrevivente do holocausto que foi mostrada no Melhor Curta-Metragem de Documentário Um Sobrevivente Lembra, em 1996, quando disse: “Eu estive em um lugar por seis anos onde ‘ganhar’ significava ‘viver’ (…), em minha mente eu lembro aqueles dias e todos aqueles que não viveram para sentir a mágica de uma tarde tediosa em casa. Em sua homenagem, eu quero agradecer por honrarem sua memória, e todos vocês podem fazer isso, quando retornarem para suas casas hoje à noite para perceber que todos vocês, que conhecem a alegria da liberdade, são vencedores.”

De fato, o Oscar se tornou um palco de superação em seus discursos. Como diria Tan Dun, compositor que ganhou a estatueta de Melhor Trilha Original por O Tigre e o Dragão, “nesta noite, com vocês,eu vejo fronteiras sendo cruzadas”. James Cameron finalizou seu discurso com a fala clássica de Titanic: “Eu sou o rei do mundo.”

Considere o Oscar algo “feito por loucos”, como disse Jack Nicholson ao ganhar Melhor Ator por Um Estranho no Ninho. Steven Soderbergh disse, ao ganhar por Melhor Diretor em Traffic: “Eu quero agradecer a todos que passam parte de seu dia criando. Não me importo que seja um livro, um filme, uma pintura, uma dança, uma peça, uma música. Qualquer um que passa parte do dia compartilhando sua experiência conosco. Eu acredito que não seria possível viver em um mundo sem arte.” É graças a essa arte que todos os anos podemos nos emocionar com os discursos de nossos heróis antes projetados na telona e agora de coração aberto para o público.

Chaplin disse em seu discurso de recebimento do Oscar honorário que “palavras são tão fúteis, tão frágeis”. E com essas maravilhas fúteis e frágeis, eles nos emocionam ano após ano.

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