Stalker

4 abr

01.jpg

Neste 4 de abril, o cineasta Andrei Tarkovski completaria 80 anos. Ele faleceu em 1986 em decorrência de um câncer pulmonar, diagnosticado na época em que trabalhava em O Sacrifício, sua última contribuição ao cinema. Alguns acreditam que sua morte estaria associada às filmagens de Stalker, longa que lançou em 1979. Outros acreditam que esta película profetizou o desastre de Chernobyl, ocorrido sete anos depois. Fato é que, independente de sua reputação de maldito, este é um dos filmes mais intrigantes e essenciais feitos pelo russo.

02.jpg

Baseado no livro Piquenique à Beira da Estrada, dos irmãos Boris e Arkady Strugatsky, Stalker acompanha um homem atormentado cujo ofício é conduzir pessoas ilicitamente a um local com propriedades sobrenaturais conhecido como A Zona. Acompanhado por dois clientes, alcunhados de Escritor e Professor, ele dribla a segurança do lugar e consegue invadir o território mais uma vez. Eles estão em busca de uma área específica, conhecida como O Quarto. Diz a lenda que, uma vez dentro deste aposento, seus desejos mais profundos viram realidade. No entanto, o caminho para chegar até lá nunca é o mesmo e A Zona parece interagir de forma diferente com cada pessoa que se aventura por ela.

03.JPG

Stalker é um filme atípico de ficção científica. Nele, os efeitos especiais estão longe de ser ingrediente fundamental. Praticamente todas as particularidades paranormais da região são apenas sugeridas, seja por sons ou elementos soltos no cenário. Como elas não se revelam por inteiro, o espectador fica imerso em tensão e expectativa, sentindo o impacto desejado sem necessidade de pirotecnias.

04.jpg

Acompanhando a poesia audiovisual proposta por Tarkovski em Stalker, os personagens muitas vezes optam por proferir considerações filosóficas em vez de simplesmente dialogar. Desde a denominação dos próprios por seus campos de atuação, fica evidente que estes são mais ícones e porta-vozes de conceitos do que simplesmente pessoas de carne e osso. Há discussão sobre o altruísmo da arte, o sentido da vida, as implicações da existência de algo como O Quarto, a crença em mitos e a necessidade da fé. Contudo, sobra algum espaço para pequenas revelações pessoais, que eximem os personagens de serem apenas suportes para elucubrações.

06.jpg

A fotografia de Stalker é impressionante desde o início, quando todos ainda estão na cidade. O ambiente urbano é mostrado sob um efeito sépia muito singular, que ora parece simplesmente preto e branco, ora parece relevar nuances esverdeadas e até ocres, como aquelas de Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet. Aliás, a transição da cidade para A Zona, na qual a imagem ganha cores vivas, ao modo de O Mágico de Oz, é formidável.

07.jpg

A iluminação bem calculada e lírica, com a qual Tarkovski ama trabalhar em cenas-chave, também proporciona deleite para os olhos. Em certos momentos, a câmera recua muito devagar, mas o diretor consegue dar dinâmica à cena por meio do leque de luzes e sombras que rege. Para completar o espetáculo visual, a cenografia é estupenda, tanto nos locais cobertos, que deixam a dúvida sobre o quanto aqueles aposentos foram abandonados ou cuidadosamente montados, quanto nos abertos, que misturam o bucólico ao pós-apocalíptico e são cheios de construções e máquinas perdidas no tempo. Nos dois casos, tudo é rico em detalhes e belissimamente enquadrado.

08.jpg

A produção foi rodada em Tallinn, capital da Estônia, numa área próxima a uma indústria química. Membros da equipe afirmaram que dejetos tóxicos eram descartados nos rios por onde todos envolvidos no filme transitavam. Alguns deles, como por exemplo Larisa Tarkovskaya, assistente de direção e esposa de Tarkovski, também faleceram de câncer anos após as filmagens. Isso reforçou a teoria de contaminação geral neste cenário tão propício para a narrativa.

05.jpg

O desfecho inesperado e a enigmática cena final, sonorizada com um trecho da Nona Sinfonia de Beethoven (utilizada também em Nostalgia, obra seguinte do diretor), valorizam o longa, mas o que vale mesmo é seu desenvolvimento. O prestigiado diretor Ingmar Bergman chegou a dizer que Tarkovski era seu favorito e o único que conseguiu inventar uma “nova linguagem” com o cinema. Realmente, sua construção do tempo e sua serenidade para executar determinadas tomadas, com closes e travellings letárgicos, é notável. Cada frame é tratado com extremo respeito, podendo sobreviver sozinho como foto artística. Suas cenas são densas, hipnotizantes, plenas de substância e sem medo de serem demoradas. Caso o espectador embarque, pode se materializar gradualmente no local da gravação e sentir legítima comunhão com o filme. Quem assiste pode se acostumar tanto a um plano estático que sentirá que está se movendo junto com a câmera quando ela decidir retomar seu caminho. Dá para contar nos dedos de uma mão quantos cineastas têm esse talento. Tarkovski deve ser o pai-de-todos.

09.jpg

(texto publicado originalmente no Obvious)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: