Óculos 3D: saiba para onde vão os que você usa após cada sessão

2 abr

(matéria que fiz em maio de 2011, originalmente publicada no Cineclick)


Em terceira dimensão: a diversão é segura, mas requer cuidados

Desde o lançamento de Avatar, no final de 2009, o cinema em três dimensões voltou a ser um fenômeno. A técnica, criada no século passado e agora aperfeiçoada, depende do uso de óculos especiais que possibilitam a ilusão de ótica que cativa o público. Ao chegar ao cinema, o espectador recebe os óculos na entrada. Estes podem vir embalados ou não. Ao final da sessão, devolve a um dos funcionários do local ou os deposita numa caixa. Mas, o que acontece com eles depois?

O técnico de audiovisual Adriano Rodrigues esclarece que todos os óculos que saem de uma sessão passam por um processo de esterilização após serem utilizados, não podendo ser reaproveitados de uma sessão para a outra. Ele trabalha com máquinas especializadas nesse tipo de higienização na empresa Transisom Cine Eletrônica, responsável por redes como Cinemas Unibanco e Cinematográfica Araújo. “Todo o processo é feito com luvas e com bandejas separadas para receber os óculos limpos”, explica Adriano, que destaca também que os equipamentos de limpeza já vêm inclusos na compra do pacote de exibição em 3D quando uma sala de cinema o adquire.

As lavagens duram entre 5 e 10 minutos e podem comportar três bandejas com 12 a 15 óculos cada. Todas são mergulhadas em água a 70°C e entram em contato com detergentes e bactericidas especiais. Após serem retirados, os óculos não passam por contato humano até serem entregues novamente para os usuários nas portas das salas.

Embora este seja o procedimento necessário, os cinemas não estão sujeitos a inspeções periódicas segundo a assessoria da COVISA (Coordenação de Vigilância em Saúde), responsável pela Vigilância Sanitária no município de São Paulo. Para que uma sala passe por algum tipo de fiscalização, é necessária uma denúncia ou o desenvolvimento de um programa específico, como o que ocorreu entre agosto e outubro de 2010. Na ocasião, 12 estabelecimentos pertencentes a diversos grupos cinematográficos com salas 3D da capital foram inspecionados.

A COVISA garante que, apesar da ausência de um padrão legal para a higienização de óculos 3D, reforçou junto aos representantes as medidas que devem ser tomadas para a minimização do risco de contaminação, orientando os exibidores em relação a locais de higienização, produtos utilizados, armazenamento e treinamento de funcionários.

Legislação

Desde agosto de 2010, tramita na ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) o projeto de lei nº 598, proposto pelo deputado estadual João Caramez (PSDB), que oficializa a padronização dos processos de higienização dos óculos 3D. O documento prevê que todos eles sejam “devidamente higienizados e embalados individualmente em plástico estéril com fechamento a vácuo”, algo que a maioria das redes não cumpre à risca.

O projeto já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e também pela Comissão de Defesa dos Direitos do Consumidor, mas encontra-se parado desde 23 de fevereiro, aguardando a formação de novas comissões na Assembleia, que recebeu novos deputados após ano eleitoral. A única comissão pendente é a de Finanças e Orçamento. Em caso de aprovação, o projeto será encaminhado ao Plenário, onde será votado. A expectativa, segundo a assessoria do deputado, é que seja aprovado ainda neste semestre.

A principal motivação de Caramez para elaborar o projeto foi um surto de conjuntivite ocorrido na cidade na época da proposta. Ele também se informou sobre uma epidemia do mesmo tipo acontecida na Itália quando do lançamento de Avatar. Para o deputado, “essa é, sem dúvida, uma medida simples, mas que se não for adotada pode causar um sério problema de saúde pública”.

Fontes ligadas à ABRAPLEX (Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas) e ao Sindicato das Empresas Exibidoras no Estado de São Paulo disseram que não há um lobby contra o projeto de lei, embora a medida seja antipática para boa parte dos exibidores, que preveem aumento de gastos e produção de lixo excessiva. Ainda assim, não há uma posição em comum sobre a questão, por cada rede ter sua própria dinâmica, equipamentos e tipo de óculos.

Saúde dos olhos

Para o Dr. Cláudio Domingues de Oliveira, pós-graduado pela USP em Oftalmologia, o uso dos óculos 3D para assistir a filmes não faz mal para a visão por si só. Segundo ele, se a pessoa usar os óculos e sentir problemas durante a sessão é recomendável que procure um oftalmologista para verificar um possível problema pré-existente, que não tem relação direta com o uso do acessório.

No entanto, o médico adverte que se a pessoa desenvolve algum problema posterior de conjuntivite e esteve em contato com os óculos 3D higienizados de forma incorreta, é grande a chance de ter adquirido o problema pelo contato. “Não há como garantir que a doença tenha vindo dos óculos, já que podemos contraí-la pelo contato com outros equipamentos públicos, como em caixas eletrônicos, mas ainda assim é muito provável que a conjuntivite tenha sido contraída na ocasião”, afirma Oliveira.

Ele aproveita para destacar que o uso dos óculos 3D por cima de óculos de lente pode trazer desconforto para algumas pessoas. “Se a pessoa coloca duas lentes sobrepostas, são duas superfícies que refratam a luz de formas diferentes. Isso pode causar alguma confusão na percepção”, esclarece o oftalmologista, que diz que em alguns casos pode haver enjoo e mal estar.

Enquanto a lei não é aprovada, os precavidos podem limpar os óculos usando lenços com álcool em gel antes do início da sessão. Existe também a opção de adquirir seus próprios óculos 3D. Os modelos disponíveis no mercado têm preços que variam entre R$ 30 e R$ 150. Alguns modelos importados podem chegar a surpreendentes R$ 1.200.

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