Demônio

31 mar

Devil

Estava relendo as críticas que fiz para o Cineclick quando estagiei por lá e resolvi colocar aqui a segunda que fiz, aproveitando que falei faz pouco tempo de O Último Exorcismo e Possessão. Neste texto, discorri sobre Demônio, filme produzido por M. Night Shyamalan. Já discordo de algumas afirmações que fiz na época, mas creio que isso é natural em qualquer texto opinativo quando relido após intervalo considerável de tempo.

De qualquer jeito, acredito que a experiência fez parte de um bom início e rendeu um bom causo: na saída do filme, depois da meia noite e no meio da semana, o estacionamento do shopping estava deserto e, ao sair com o carro, uma caminhonete bateu em cheio na minha porta. Para minha alegria, aconteceu numa velocidade bem amena, que trouxe danos apenas para o veículo. Ainda assim, não deixa de ser boa historinha para agregar a uma sessão de terror. Minhas impressões durante a projeção e antes do acidente foram as seguintes:

“Demônio certamente é nome pretensioso para um filme de terror. O gênero tem o cramunhão como norte em muitas ocasiões e já conseguiu exibir bem a sua essência em algumas delas. A Profecia e O Exorcista talvez sejam alguns dos melhores exemplos de boas transposições do satã para a sétima arte. Mas este é um dos olimpos no qual esta produção de M. Night Shyamalan não figurará, apesar do nome.

O começo do filme não é original, mas também não deixa de ser interessante: cinco estranhos entram num elevador que sofre pane no meio do trajeto. O tempo vai passando e ninguém dentro ou fora consegue entender o que está impedindo a cabine móvel de seguir seu curso normal. Enquanto isso, a cada apagão que acontece no claustrofóbico ambiente, alguma das pessoas aparece ferida. Qual delas estaria machucando os outras? Ou será que não é nenhuma delas?

O filme inteiro se concentra no prédio em que o incidente ocorre e boa parte é focada apenas no elevador. Se existe um trunfo de Demônio, é justamente administrar bem essa claustrofobia, com boa ajuda da trilha sonora, que exala o desespero dos personagens, todos forçados a passar uma aparente eternidade em menos de dois metros quadrados – que se provam bem perigosos.

Todavia, há uma falta de profundidade incômoda na história que inaugura a trilogia The Night Chronicles, na qual Shyamalan pretende mostrar eventos sobrenaturais em ambientes urbanos. Em dado momento, chega a ser risível como toda cena tem que vir acompanhada de alguma observação edificante, muitas vezes colocada de forma artificial. Esse é um capricho que quebra a tensão, fundamental para a história, dando a impressão de que o roteiro quer deixar muito claro o que o seu autor pensa sobre a vida e é só isso que importa.

Sendo assim, nada mais correto que constatar que, embora não tenha dirigido dessa vez, esse é um filme típico de Shyamalan. E isso serve tanto para os aspectos negativos quanto para os positivos. O aspecto indesejável é evidente: a história cresce através de um mistério latente que se revela ao final por meio de uma grande surpresa e há lição moral por trás do ocorrido, transmitida de forma piegas.

Shyamalan teve bons momentos, mas não há como defendê-lo quando a acusação diz respeito à forma, ou melhor, à fórmula que ele utilizou ao longo de toda esta década em seus filmes autorais. Fim dos Tempos, por mais que tenha sido considerado um péssimo longa até mesmo por seu protagonista Mark Wahlberg, pelo menos representou uma interessante quebra nesse paradigma, assumindo tom quase niilista. Mas o cineasta ainda custa para se desapegar de sua marca – da qual nunca se livrou definitivamente, sempre na rasa obsessão de ensinar algo.

Demônio
 não é um completo fracasso na medida em que garante certa ansiedade ao espectador. O suspense consegue atiçar a curiosidade sobre o que está causando aquilo em um ambiente tão pequeno, além de evidenciar o impacto que esse tipo de situação gera nas pessoas, que vão transbordando suas personalidades conforme a violência aumenta. Entretanto, além do ritmo e duração do longa não permitirem que os personagens sejam propriamente elaborados, existem filmes que já exploraram esse tema de uma forma mais interessante.

É possível citar Um Barco e Nove Destinos, de Hitchcock, que mostra pessoas sobrevivendo em um bote salva-vidas por dias, como um exercício melhor do gênero. Até O Iluminado, de Kubrick, consegue passar uma sensação mais opressiva e sufocante, usando um hotel de inúmeros aposentos, do que Demônio consegue em um elevador. Esses fatores, inevitavelmente, o tornam uma diversão bem momentânea e um filme menor.” – Christian Costa, 03 de dezembro de 2010

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