Relapse

28 mar

Fora alguns hits que passavam no Gás Total da MTV na primeira metade dos anos 90, não conheço nada de Ministry. Entre as bandas de rock industrial, sempre preferi Nine Inch Nails, Rammstein, Einstürzende Neubauten, Pitchshifter e até o cômico Laibach. Por alguma razão, nunca achei nada de especial nesse conjunto. Lembrei dele dia desses quando Ian Rocha me enviou esse clipe maravilhoso do Butthole Surfers.

Veio à memória instantaneamente um clipe em que esse vocalista, Gibby Haynes, cantava para o Ministry. Talvez seja a melhor música que tinha ouvido deles até agora.

Para minha surpresa, esta semana o Ministry está lançando novo álbum chamado Relapse. Decidi escutar para ver se achava nele aquele brilho que nunca vi na época – e acabei fisgado pelo som. Não sei dizer se esse poder de fogo sempre esteve lá ou se eles melhoraram, mas esse disco tem resultados majoritariamente positivos, a começar pela excelente faixa inicial, Ghouldiggers. A longa introdução com um proto-discurso do vocalista Al Jourgensen não deve desanimar os ouvintes, pois quando a destruição chega, ela vem como uma locomotiva e faz todo aquele introito se tornar um agradável preâmbulo. A bateria programada pelo próprio Jourgensen está entre as mais violentas do industrial e adorna perfeitamente a linha galopante de guitarra, com células rítmicas criativas e efetivas, expostas em timbres cuidadosamente sintetizados para ferir de forma singular. O resultado é tão agressivo e empolgante que, em três minutos de escuta, é possível agradecer aos céus – ou às profundezas – pela banda não ter parado.

(O Al parece o Kurt Sutter, do Sons of Anarchy, não?) Um dos aspectos mais legais de Relapse é que, embora seja metal, as baterias não são montadas para serem simples britadeiras, erro muito recorrente no gênero, sobretudo no Fear Factory. A impressão neste caso é de um rock’n roll turbinado; de algo realizado por força sobre-humana, mas não robótica. O mesmo princípio se aplica ao solo de guitarra, que tem uma fritadeira tunada, mas que não desprega do tapete sobre o qual desfila, não perde o contexto em prol da exibição técnica. Para melhorar esse panorama, há o lado sarcástico nas letras, nas intervenções sampleadas e nas interpretações vocais de Jourgensen. A própria fusão de rock’n roll extremo com momentos mais dançantes colabora para esse clima. Aliás, fiquei imaginando aqueles alemães que fazem dancinha industrial em praças tentando manter o passo com faixas como Double Tap. Ia rolar uma queima de gordura danada nessa aeróbica cyberpunk.

As vinhetas do álbum me fizeram lembrar do saudoso White Zombie, que recheava suas músicas com referências a filmes de terror. (É uma pena que Rob Zombie tenha comprometido o projeto ao se emancipar.) Em Freefall, uma dessas introduções prepara os ouvidos para uma iminente queda livre num furacão de arame farpado. Não consigo pensar em nenhuma trilha sonora melhor para jogar Twisted Metal, ler Lobo ou ver melhores cenas de Mad Max. Não há concessão, esse jato supersônico não para. Ou melhor, não até a metade do disco.

Kleptocracy quebra de leve o andamento predominante no álbum em prol da melodia, que sustenta o melhor refrão no disco. Jourgensen reduz um pouco a marcha, mas o som continua firme. Mesmo United Forces faria um bate-cabeça virar moedor humano. Não como aquele de Another Brick in the Wall, mas aquele do fim de Fome Animal, no qual o protagonista providencia o apocalipse zumbi indo e vindo numa sala forrada de mortos-vivos com seu cortador de grama que despedaça tudo que encontra. Após a desgraceira da faixa, há o primeiro descanso desde o início de Relapse. É aqui que os problemas começam.

99 Percenters começa com um efeito de guitarra, mezzo chorus mezzo phaser, que destoa completamente do que foi apresentado até aqui. Depois o peso é resgatado, mas as eventuais voltas desse timbre farofa travam e estragam tudo. É o primeiro filler do álbum. O miolo dessa música parece até coisa que The Edge e seu U2 fariam (nada contra eles, apenas não é o lugar). É uma composição dúbia, aparentemente dramática, até melancólica. Não combina. A faixa-título, que vem em seguida, deveria reerguer rapidamente os ouvintes após esse equívoco, mas acaba apenas incentivando todos a continuarem bebendo no balcão ao fundo, para onde migraram após a banda perder seu poder de atração.

Há um remix dessa faixa ao fim do disco, com tratamento eletrônico da composição – o que não chega nem perto de salvá-la. Quem estiver com sono ao fim dessa escuta, dormirá fácil por lá. E, bom, as demais músicas deste setor são burocráticas. Git Up Get Out’n Vote é a salvação dessa segunda metade, com Jourgensen explorando ao máximo o drive em sua voz e berrando sem parcimônia.

No todo, Relapse me surpreendeu. Não sabia que o Ministry era capaz de fazer faixas tão boas. É uma pena que esse hiato de três anos não tenha sido o suficiente para que eles fizessem mais de meio álbum de músicas excepcionais. Talvez seja necessário um pouco mais de reinvenção, por mais que aqui existam ótimos exemplos do potencial deles. Se a primeira metade fosse lançada junto com Git Up Get Out’n Vote, esse seria de longe o melhor EP do ano.

Relapse

Ministry

13th Planet

US$9,90

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