Os Trapalhões na Terra dos Monstros

27 mar

Com a morte de Chico Anysio, muito está se falando sobre sua genialidade. Assisti bastante Escolinha do Professor Raimundo e gostava muito do programa. Mas, por mais que façam homenagens ao mestre, o melhor tributo da semana foi para Renato Aragão e os Trapalhões. O Judão noticiou que 37 filmes do quarteto estão inteiros disponíveis no Youtube. Pode parecer exagero, mas fiquei emocionado quando soube disso. Faz muito tempo que sonhava assistir de novo Os Trapalhões na Terra dos Monstros, meu preferido da trupe. É justamente o vídeo que eles embedaram. Tive medo dessa comédia ter envelhecido, mas graças a tudo que há de bom, ela permanece excelente. Confira o longa na íntegra – enquanto ninguém tira do ar, já que o canal não é oficial.

Após tantos anos do intragável Turma do Didi, dá alívio rever Renato Aragão com seus fantásticos companheiros em uma das melhores performances do grupo. Aqui, eles foram dirigidos por Flávio Migliaccio, mais conhecido por seu trabalho como ator. Lembro mais dele como o Peninha de O Amor Está no Ar e o Caju de Torre de Babel. Além disso, ele participou da excelente minissérie Incidente em Antares e dos filmes Terra em Transe e Cinco Vezes Favela. Seu currículo é ótimo e sua competente direção deste longa apenas abrilhanta mais essa trajetória.

Para mim, Os Trapalhões na Terra dos Monstros é tão importante quanto Labirinto, História sem Fim ou Viagem ao Mundo dos Sonhos. Sei que é opinião polêmica, mas falo isso dum ponto de vista completamente afetivo e não crítico. A experiência de rever esse longa, lançado em 1989, e que vi tantas vezes na Globo no começo dos anos 1990, é tudo menos técnica. Por exemplo, acho a montagem de Carlos Cox afiadíssima (e, puta merda, o cara foi também um dos montadores de A Idade da Terra, do Glauber, que inspirou o pano de fundo deste blog). As esquetes têm momentos hilários, até as atuações naïf do cantor Conrado, da apresentadora Angélica e da modelo Vanessa de Oliveira são magistrais e o roteiro está irretocável. Essa é definitivamente uma das grandes comédias, ou melhor, um dos grandes filmes do cinema nacional, sem tirar nem pôr. Ágil, divertido e bem produzido, poucas películas deixam uma sensação de bem estar tão forte ao fim.

No filme, Os Trapalhões trabalham para o Dr. Romeu, que faz as vezes de pai da Angélica. Ela concorre a um concurso no programa Viva a Noite, de Gugu Liberato, e sonha em gravar clipe com o grupo Dominó na Pedra da Gávea. Quando vai ao local, ela desaparece junto com seu namorado, o cantor Conrado. Cabe a Didi Mocó, Dedé Santana, Mussum e Zacarias (aqui grafado sem o “s”) resgatá-los – algo que envolverá altas confusões e a descoberta de uma turminha que parece de outro mundo.

Os Grunks estão entre as melhores sacadas do filme. Fiquei pensando com que eles pareciam e cheguei à conclusão absurda de que são uma fusão entre Ewoks, monstros de Spectreman, criaturas de Cronenberg, alienígenas do Viagem ao Mundo dos Sonhos e integrantes da Gang do Lixo. Potencialmente, o ser mais escrotinho e cativante do universo.

Destaque também para o conjunto musical dos Grunks (regido por Mussum), a melhor coisa desde a banda da cantina do Episódio IV.

E sempre quis comer o macarrão com aranhas verdes servido no casco. Apreço pelo nojento é algo comum entre crianças – eu pelo menos era fã do boneco Neb, que era bem pior. Falando em alta gastronomia, o filme inclui merchans protagonizados pelos super-heróis do refresco Royal, pelo Bocão da gelatina Royal e pela galinha da Maggi. 80’s (e começo dos 90’s) até a medula.

Para finalizar o momento de nostalgia oitentista, o sábio monstro Lama (Barbárvore-oriented) me lembrou os bonecos-fantoche Bogs (foto). E os vilões Barks me assustavam, mas não tanto quanto o Jabberwocky da Alice no País das Maravilhas de 1985 ou o Vlad de Ney Latorraca em Vamp.

A trilha sonora de Os Trapalhões na Terra dos Monstros é fantástica. Desde o funk que sonoriza a animação introdutória, passando pela música de luta e pelo tema principal, até chegar ao hit Tô P da Vida, do Dominó, nada decepciona. Aliás, a rápida intervenção da boy band no meio da história é muito forçada – algo que apenas refina o sabor exótico da obra. Pela época e por sua inocência, esse não poderia ter virado midnight movie nos EUA. Até onde sei, da filmografia nacional, apenas Macunaíma (1969) foi descoberto e celebrado pelo underground nova-iorquino. O longa de Migliaccio está mais alinhado com a tendência dos filmes de culto que veio em seguida, representada por películas como Goonies e Curtindo a Vida Adoidado. Este filão também atraía fãs obcecados, mas tinha conteúdos mais assimilados e aceitos pela sociedade. Seja qual for sua filiação hipotética, esse é um filme-festa nato.

Outro grande destaque vai para a beleza de Angélica, que é ressaltada ao máximo. Grande fã da Manchete, que passava os tokusatsus mais importantes (Jaspion, Changeman, Flashman, etc), via a apresentadora diariamente durante a infância e sempre a considerei, entre suspiros, absurdamente superior à Xuxa. Em Terra dos Monstros, não é apenas a formosura dela que fica muito relevada, mas também sua sensualidade ingênua e natural. É possível ver toques de malícia na câmera de Migliaccio ao captá-la, mas em geral os ângulos capciosos são reservados para Vanessa de Oliveira, que interpreta Cira, par romântico de Didi. A busca do diamante em seu decote é um dos takes em que isso fica mais evidente. Mas ainda há a câmera hesitante ao mostrar Angélica subindo uma escada e principalmente alguns poucos frames em que a loira morde o lábio durante uma cena de luta. Certamente isso foi colírio para toda criançada. Angélica é a melhor. Inclusive, ela faz o ato musical feminino mais divertido dos anos 1980, só rivalizando com Diane Lane em Ruas de Fogo.

Gosto de fantasiar que Os Trapalhões na Terra dos Monstros pode fazer sentido para qualquer um, mas talvez ele só faça para quem foi criança nessa época. Ao revê-lo após mais de 15 anos, lembrei de cheiros daquele tempo, da casa da minha vó, do dia-a-dia de pré e primário, de coleguinhas, de família, de muitas coisas distantes e esquecidas. Mais do que a redescoberta do longa, essa sessão caseira foi a descoberta de uma urna temporal muito valiosa. Toda caricatural e inocente, esta película sintetizou muito a sensação de infância para mim. Ver e escutar qualquer uma dessas cenas é ser teleportado para uma festa infantil com decoração da Família Dinossauros, homens e mulheres com mullets e tiozinhos bigodudos. Em tempo: o fato do filme ter celebridades da Globo, da Manchete e do SBT também é síntese pura daquela época em termos de televisão brasileira. Quem imaginaria algo reunindo canais assim hoje em dia? É apenas mais uma das inúmeras qualidades dessa grande obra audiovisual brasileira. Extremamente recomendável.

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