O Último Exorcismo

24 mar

Tenho enrolado para rever O Exorcista. Esqueci detalhes do final e queria conferi-los para sacar o quanto os anos passados vão mudar minha opinião. Hoje tive a ideia babaca de compensar essa vontade vendo um filme que estava disponível de graça aqui num novo canal da Net (Telecine Play). Quando estava trabalhando no Cineclick, lembro de cadastrar esse lançamento em DVD/BD.  O longa é O Último Exorcismo. Eu costumo gostar de terror com esse tema. Além disso, vi que a análise dos críticos no Rotten Tomatoes não era negativa. Tudo isso me fez começar a sessão com grandes expectativas.

Desde o primeiro frame do filme, é possível ver uma câmera contra o espelho no qual o Reverendo Cotton Marcus se barbeia. O espectador logo é alertado de que estamos em um mockumentary, ou seja, um falso documentário – algo que autoriza instantaneamente a câmera a tremer, sair de foco e fazer tudo nas coxas. Vemos a estrela da filmagem se preparando para seu sermão, tomando seu café da manhã, beijando sua esposa, etc. Logo aparecem depoimentos, fotos da família e cenas do homem em seu divino ofício. Então surge o elemento inesperado: na verdade, Cotton buscou essa equipe de filmagem para rodar aquele que seria seu último exorcismo. Cético e descrente de suas atividades no ramo, ele quer mostrar o quanto o processo para expulsar demônios não passa de uma farsa. Ao receber o último pedido que pretende atender e levar as câmeras até o local, ele se depara com uma situação inesperada: a garota supostamente possuída acorda toda noite com roupas ensanguentadas e sempre há um novo animal morto na fazenda em que vive. Após o primeiro dia de avaliação e uma noite de exorcismo, tudo fica mais estranho para o reverendo, que até ali só tinha atendido pedidos de simples histeria.

Uma das virtudes do filme é mostrar um reverendo completamente desiludido não só com exorcismos, mas com a própria fé em sua pregação. Num dado momento, ele faz um desafio à câmera: aposta que pode colocar qualquer assunto no meio de um sermão, já que as pessoas ficariam numa espécie de transe enquanto ouviam suas palavras. Ele promete colocar de alguma forma “bolo de banana” no meio de seu discurso. Dito e feito, ele inventa uma pequena história para enfiar a receita no meio de sua palavra divina e, voilá, bananas, fermento, milagre, amém. Tudo é tão cênico para o personagem que ele chega a aparecer fazendo truques de mágica e admite fazer parte do grupo de teatro de sua cidade. A igreja era apenas o escape para sua tendência performática.

Nesse aspecto, o filme me lembrou de O Ritual, um dos longas mais recentes com Anthony Hopkins. Nele, o exorcista também é mostrado como uma fraude que num determinado momento se vê diante de situação real de possessão. Em ambos os filmes, esse conflito é explorado de forma dúbia. Ao mesmo tempo em que ele parece desmistificar os processos litúrgicos de salvação, desmascarando truques e artifícios dessas supostas autoridades eclesiásticas, por outro lado ele acaba enaltecendo ainda mais a religião, como numa lição de moral – quase falando “não zombe dos demônios, eles apenas parecem não existir”.

Mesmo suscitando questões, o que predomina no filme é a sensação de que ele é ruim e desnecessário. Boas coisas são feitas com found footage e mockumentary, como a trilogia Atividade Paranormal e REC, mas também muita coisa horrível, como Apollo 18, que “explica” porque nunca teríamos retornado à Lua. O Último Exorcismo e sua pilha de equívocos ficarão nesse grupo dos horríveis. Um dos erros do longa é ter investido em uma fotografia limpa. A imagem não é granulada e nem precária em sua captação, dando pouca impressão de algo amador ou até mesmo de um documentário, que poderia ser mais informal. Até quando a câmera perde foco, parece uma ação premeditada. Há também cortes e ângulos demais dentro da mesma situação, dando impressão de que não há uma câmera, mas pelo menos três no mesmo ambiente. Dava para evitar esse erro crasso, que menospreza o espectador, fazendo planos sequência, que são simples, efetivos e aumentam a tensão. Chuto que eles não fizeram isso pelos efeitos especiais e atuações não serem bons o suficiente para segurar esse ritmo e tentaram corrigir essa deficiência fazendo edição mais rebuscada. Não adiantou.

Outro destaque ruim é para a atriz Ashley Bell. No começo do filme, ela parece promissora, passando bem a imagem de garota reclusa, tímida e meiga. No entanto, quando é necessário encarnar o cramunhão, o freio de mão fica puxado. A possessão dela é tão fake quanto a loucura de Keira Knightley em Um Método Perigoso, que ainda não foi lançado no Brasil. Há excesso de pequenos trejeitos em detrimento de uma entrega absoluta, como a que Linda Blair (O Exorcista), Isabelle Adjani (Possessão) e Jennifer Carpenter (O Exorcismo de Emily Rose) conseguiram alcançar. Quando Ashley empurra pessoas ou sobe em armários, sua leveza não combina com a truculência esperada de uma possuída que no dia anterior rasgou o bucho de um cavalo sem hesitar.

Nessa pindaíba, o defeito que coroa o longa é sua fuga costumeira e não-intencional para o registro cômico. A má idealização de cenas-chave no roteiro e as atuações inverossímeis fazem o espectador questionar se pode haver intenção engraçada por trás daquilo. Tendo a afirmar que não. Pelo menos não da forma que George Romero às vezes coloca em seus filmes de zumbi mais recentes ou que Peter Jackson colocou em seu brilhante Fome Animal. Aqui não há graça alguma. O que há é falta de planejamento que fez certas sequências naufragarem sem que o diretor Daniel Stamm, ainda engatinhando na sétima arte, achasse solução. O final ameaça ser original, mas suas reviravoltas não são bem articuladas e caem no clichê. Hoje, quando deitar a cabeça no travesseiro, a imagem de Linda Blair me atormentará por ter perdido tempo com essa aberração – que nem ao menos é divertida.

O Último Exorcismo

Daniel Stamm

Studio Canal

R$ 0 (TC Play)

2 Respostas to “O Último Exorcismo”

  1. Victor Ribeiro Miranda março 25, 2012 às 11:50 am #

    Cara, na cena que a equipe entra no quarto da menina e ele tá todo pichado tem um monte de símbolos que não tem nada a ver com o demônio, recomendo você ir pausando e dando risada. O pior de tudo é que essa bosta de filme ainda vai ter continuação: http://www.imdb.com/title/tt2034139/

  2. luis carlos novembro 7, 2012 às 4:59 pm #

    eu fiz um pacto com o diabo e consegui o que queria e agora o que que eu faço para continuar eu me chamo carlos henrique e tenho 13 anos

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