Noctourniquet

20 mar

Em conversa de bar, comentei mais de uma vez que apenas três bandas salvaram o rock na primeira década deste século: Radiohead, Queens of the Stone Age e Mars Volta. Foram as únicas que trouxeram diversas contribuições originais e de alta qualidade, cada uma com pelo menos 4 álbuns excepcionais no período. Ansioso por qualquer lançamento delas, fiquei feliz por Noctourniquet, novo álbum do Mars Volta, chegar às lojas neste fim de semana. A parte ruim dessa história é que definitivamente ele não é uma das obras-primas do grupo.

Se desde De-loused in the Comatorium (2003) até The Bedlam in Goliath (2008) o Mars Volta fez um tour de force, com álbuns vigorosos e expressivos de neo-prog e neo-psychedelia, Octahedron (2009) por outro lado demonstrou um declínio que Noctourniquet apenas solidificou. Mesmo sendo um álbum conceitual, ele não parece ter identidade, sendo apenas uma reunião de faixas menores e inconsistentes. Há quem possa ver na atitude mais comportada dos rapazes o ganho de maturidade enquanto compositores. Agora eles parecem preferir canções mais enxutas e singelas em detrimento das músicas intrincadas e cheias de seções que caracterizaram os dois primeiros terços de sua trajetória. É possível ver a transformação por este viés, mas se for esse o caso, ainda assim existem ressalvas. A produção de Omar, por exemplo, parece persistir sintonizada com a atitude musical anterior. O resultado seria mais efetivo com um tratamento seco, quem sabe num disco puramente acústico. A gama de efeitos sonoros permeando essas composições retas e pouco floreadas apenas estraga o resultado final, não conseguindo nem manter a marca registrada do Mars, que nunca é aprofundada quando aparece fugazmente, e nem criar algo inovador. O som continua parecendo cheio, mas agora por recursos de estúdio que ressaltam texturas e não pela variedade de instrumentos e linhas melódicas.

Aliás, esse álbum deflagra não só crise criativa, mas também técnica, sobretudo na voz de Cedric Bixler Zavala. Talvez o fator mais convidativo numa primeira escuta da banda, os agudos potentes do cantor quase não dão suas caras por aqui. Novamente tentando ver por um lado menos maldoso, digamos que Cedric esteja experimentando sua tessitura no campo mais grave. Seja por escolha estética ou abuso de suas cordas vocais, a verdade é que o resultado não é bom. Alguns vocalistas trocam drasticamente seu tom após problemas com drogas, acidentes ou excessos, e conseguem bons resultados com isso. Um bom exemplo é Scott Weiland, do Stone Temple Pilots, que de um disco para o outro foi de seu potente grave para um agudo rouco e blasé. Seja lá qual for a razão para a mudança, a verdade é que ele desenvolveu grande personalidade em sua nova postura vocal, como se tivesse criado um novo personagem, um novo timbre que deu muito certo.

Cedric, em contrapartida, parece estar apenas se resguardando quando fica no grave, e não utilizando um recurso para atingir um tipo específico de expressão. Fica a sensação de opção leviana, de alguém que não aguenta mais forçar tanto sua garganta e precisou criar algo mais cômodo para não ficar afônico no meio de suas performances. Ele nunca foi um grande cantor ao vivo, pelo menos no Mars Volta, mas talvez fosse a hora de priorizar o aprendizado de técnicas de canto em vez de ficar dançando feito um alucinado quando está sobre o palco. Essas linhas vocais complicadas pedem mais a imobilidade de Klaus Nomi do que os tiros de 100 metros de Bruce Dickinson.

Falando em outro mito, lembrei de Robert Plant nos últimos álbuns do Led Zeppelin, mais especificamente In Through The Out Door. O que se ouvia ali era uma ex-voz maravilhosa que agora precisava de muito reverb e outros efeitos para ser impressionante de alguma forma. É uma fase grotesca da voz de Plant, apesar das composições continuarem boas. E na faixa-título de Noctourniquet, é essa a impressão que a voz de Cedric passa ao cantar rasgado, a de uma voz que foi impressionante, mas perdeu seu impacto após anos de maus tratos.

Ainda assim, o problema aqui reside muito mais em opções estéticas do que em debilidades técnicas. Apesar do ocasional uso de timbres retrô e da aparição de um bom novo baterista (mas que também só recicla o estilo dos anteriores), nada mais é majestoso e nada mais exala o fantástico ou o surreal de forma incisiva. Há mais aproximação do pop do que do prog. Por mais que a produção possa sugerir o progressivo, a curta duração das músicas e suas estruturas retas anulam qualquer impressão de risco por parte dos músicos. É um feijão com arroz bem repetitivo. Claro, todo álbum conceitual corre esse perigo, de se focar muito em seus aspectos cênicos, pictóricos e literários, relegando a música a um plano inferior. Costumam odiar quando falo isso, mas acho que álbuns considerados geniais, como The Wall, do Pink Floyd, e The Lamb Lies Down on Broadway, do Genesis, sofrem demais com esse problema. Uma pessoa que não conhece nada da história contada dificilmente reconhecerá ali uma obra incrível só por sua música. Acredito que é fácil um disco ser severamente prejudicado em seu resultado sonoro quando há apelo artístico acentuadamente misto. Todavia, Wall e Lamb têm grandes argumentos a seu favor, como filmes maravilhosos ou espetáculos meticulosamente elaborados que foram baseados neles. Noctourniquet aparentemente não conta com nada parecido.

Não gostaria de ver o Mars tendo o fim decadente que acomete tantas bandas especiais. Tomo o Gentle Giant como exemplo. Um conjunto prog com excelência de interpretação e composição que, num determinado momento, por razões mercadológicas, optou por um caminho pouco inspirado e menos radical, que apenas maculou sua trajetória até um encerramento melancólico das atividades. O Mars parece estar rumando para isso. Talvez seja a hora de acabar com o grupo e voltar com o At The Drive In (foto), projeto anterior de Cedric e Omar. O guitarrista poderia também manter apenas sua carreira solo, onde pode agir sem grilhões ou responsabilidades (e na qual toca ao lado do baterista-locomotiva Zach Hill, que cairia MUITO bem no Mars caso eles quisessem botar o pau na mesa de novo). Será muito triste ouvir um sucessor de Noctourniquet ainda mais simples e vulgar.

Infelizmente, as três bandas que, em minha opinião, salvaram o rock na década passada, parecem estar desgastadas agora em 2012. Cabe esperar mais alguns anos para ver o que vai aparecer para salvar o estilo dessa vez. No que depender do testemunho de Noctourniquet, o Mars não fará parte disso.

Noctourniquet

The Mars Volta

Warner

US$ 59,90

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