Excalibur & X-Babies

13 mar

Meu primeiro contato com X-Men nos gibis se deu com Excalibur & X-Babies. Antes disso, só tinha visto os heróis mutantes no desenho animado, que passava por aqui na maravilhosa TV Colosso. A história foi publicada no Brasil em 1994, cerca de cinco anos depois do original. Lembro que li e não entendi nada – mas gostei mesmo assim. Por mais que não seja uma edição importante, na época enxerguei uma magia neste volume, um frescor nos personagens que não apareciam na animação, incluindo a maior parte dos membros do Excalibur. Alguns meses depois, eu começaria a colecionar X-Men de fato, a partir da edição #65 da Abril, que trazia a primeira aparição de Gambit.

Excalibur & X-Babies, publicada nos EUA como Excalibur: Mojo Mayhem, pode ser considerada uma história one-shot, independente. Há relação com os eventos da saga Inferno, uma das mais importantes na cronologia dos X-Men, mas nada que impeça a leitura por novos interessados . Algo que ajuda nisso é a opção por um registro cômico, nuance relativamente incomum na era de Chris Claremont, que cuidava dos personagens nessa fase tão empolgante. As ilustrações foram feitas por Arthur Adams, que tem um traço cativante e lembra uma versão menos agressiva e mais simplória do Jim Lee, artista que assumiria a franquia dali algum tempo.

A trama mostra os X-Babies, versão miniatura e caricatural (tanto física quanto psicologicamente) dos X-Men, escapando dos domínios extradimensionais do vilão Mojo. Durante a fuga, eles deixam para trás Rita Ricochete, que auxiliava na empreitada. Na dimensão comum, eles pedem ajuda de Kitty Pride, no momento integrante do grupo Excalibur, para resgatar Rita. Paralelamente, o mezzo caçador de recompensas mezzo empresário conhecido como O Agente já está no encalço dessa turminha do barulho que acabou se metendo numa tremenda confusão. *obrigado, Globo, pela TV Colosso*

Claremont foi bem inventivo neste pequeno desvio da trama principal. Além de contar com o injustiçado Excalibur (que, numa hierarquia de grupos mutantes, ficaria em quarto ou quinto lugar), com Mojo (um dos vilões mais incomuns da Marvel) e com os X-Babies (que traziam a personalidade dos heróis a um nível infantil), há uma articulação humorística das falas e agradáveis inserções metalinguísticas. Neste aspecto, dois momentos se destacam: um em que Kitty e os X-Babies roubam o carro que levava Claremont para uma sessão de autógrafos e outro em que o grupo mirim escapa da dimensão de Mojo ao encontrar a “Casa das Ideias”. Na fachada do lugar, estão os nomes de importantes sagas não só da Marvel (Guerras Secretas, Ataques Atlantes), como da DC também (Crise nas Infinitas Terras, Invasão, Lendas). Melhor ainda: o aposento pelo qual eles escapam se chama “Casa de Jack e Stan”, fazendo referência a Jack Kirby e Stan Lee, que criaram os X-Men e diversos outros grupos e heróis clássicos da editora.

É admirável que a Abril tenha pensado em publicar essa história em formato americano e como edição especial. É a típica aventura que pararia no que pode ser chamado de “lado B” das revistas em formatinho (felizmente, algo que talvez esteja extinto ou em vias de extinção hoje em dia).  Mas há um apelo, nítido desde a capa, nessa reunião de personagens – e ter começado minha coleção por aí é prova viva disso. Dentro do volume, a escolha de Kitty como personagem principal também foi muito acertada. Ela mesma foi achada por Xavier e seus alunos ainda adolescente, ficando um pouco como a café-com-leite da turma e vendo nos outros figuras paternais ou de irmão mais velho. Diante desse quadro, nada melhor que colocá-la para liderar os babies. Isso colabora muito com o humor adicionado por Claremont, tanto pela interação que ela tem com cada um deles em suas versões sem seriedade quanto pelos traços infantis que ela própria demonstra, como a birra, os sustos fáceis e a ingenuidade. A cereja do bolo é Kitty se culpando por uma suposta morte dos X-Men, algo que pouco depois seria desmentido, e vendo na ajuda aos X-Babies uma segunda chance para fazer as coisas darem certo.

Muitas vezes vi pessoas dizendo que não começavam a ler X-Men, ou qualquer outra publicação que trouxesse heróis clássicos, por receio de não conseguir pegar o bonde andando. Embora os quadrinhos estejam numa tendência oposta, cada vez mais favorecendo ciclos breves, esses grupos com sagas que duram décadas merecem ser lidos. Vale dar o pontapé inicial pelo começo de alguma fase, de algum roteirista ou mesmo partir do meio, por qualquer edição, sabendo que por umas cinco revistas muita poeira será comida. Mas sempre há sebos ou gibitecas para saciar dúvidas (fui muito à Gibiteca Henfil para achar edições referenciadas por asterisco). Aliás, isso nos anos 1990, afinal hoje existe internet para qualquer um fuçar e entender melhor as cronologias. Trocando em miúdos, o importante é começar. Por mais que não se entenda nada no momento, revisitar esse ponto de partida anos depois poderá trazer grande emoção.

Excalibur & X-Babies

Chris Claremont e Arthur Adams

Marvel

R$ 2,90

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