Torture

10 mar

Curto rock desde pequeno e foi ainda na pré-adolescência que tomei gosto por suas vertentes mais pesadas. Provavelmente por culpa do carismático Gastão Moreira e seus programas na MTV, como Gás Total e Fúria Metal. Suponho que seja comum, para moleque querendo pedrada na orelha, garimpar as bandas mais extremas, que possam trazer a experiência quintessencial de inferno em forma de distorção. E, ao meu ver, embora existam sons mais pesados, rápidos e sujos, nada conjuga tão bem essas características com boa interpretação e composição para o gênero quanto o Cannibal Corpse, que lança Torture, seu novo álbum, nesta terça-feira (13).

Embora eu seja muito fã e me divirta ouvindo um álbum do Cannibal Corpse de cabo a rabo, algo talvez penoso com algumas bandas do gênero, fiquei decepcionado com Torture. Claro, certos aspectos continuam excelentes: a voz bestial de George Corpsegrinder Fisher, sempre alternando vocal gutural e rasgado com maestria; o grupo soando afiado e capaz de conduzir sua destruição sonora por horas; e as composições muito convidativas, algo raro entre conjuntos de death muito extremo. OK, acho que é esse o problema. Talvez as músicas estejam redondas demais.

Devoured By Vermin é só um exemplo. Poderia ser Hammer Smashed Face, Pounded Into Dust ou qualquer outra das singelamente intituladas músicas antigas do Cannibal. Existia um padrão que foi apenas sendo refinado na  banda, ao menos até o álbum anterior, Evisceration Plague, de 2009. Os riffs rápidos com convenções abruptas, a blast beat esmirilhando caixa e chimbal, agudos pontuais de guitarra vibrando entre seções, fórmulas de compasso alteradas inesperadamente, vozes monstruosas, dissonância e atonalismo… tudo que caracterizava o som do grupo estava presente até essa época. Mas algo parece estar mais brando em Torture. A exploração máxima desses aspectos parece estar sendo negligenciada em prol de algo menos rebuscado, mais reto e audível ao público de metal em geral. O que pode passar impressão de cansaço e esgotamento criativo aos seguidores antigos, talvez passe acessibilidade aos fãs de outros gêneros. Guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos o que o Metallica fez deliberadamente com seu som nos anos 1990, principalmente a partir de Load.

Em Torture, algumas músicas insistem num andamento arrastado e sem intervenções criativas (Scourge of Iron e Followed Home Then Killed), tem seções inteiras que lembram mais crossover que death metal (Demented Agression) e até solos dobrados que remetem a metal melódico (Sarcophagy Frenzy). Não sei direito a que atribuir essa mudança de registro da banda, já que o produtor Erik Rutan está com ela desde Kill (2006) e a gravadora Metal Blade está por trás de seus lançamentos há mais tempo ainda. Parece ser uma mudança consciente do próprio Cannibal Corpse em direção a um som mais aberto a novos fãs. Ainda assim, lamento que os atributos que deixavam o som mais bronco estejam rarefeitos. Se continuar assim, o jeito será ouvir mais outras representantes de death metal, como Deeds of Flesh, Krisiun e Morbid Angel.

Torture não é um álbum ruim, pelo contrário, é empolgante, técnico e pesado. Aliás, a faixa Torn Through, que fecha o disco, tem ótimos momentos. Mas ao saber que o autor aqui é o Cannibal Corpse, a reação é de desgosto pela queda de rendimento do grupo. A personalidade foi fundamental para eles criarem tantas obras-primas da desgraceira até poucos anos atrás. Todas com aqueles títulos memoráveis que remetem a Hellraiser, sessões de tortura, filmes gore e tudo que há de mais infernal. Aliás, eles não falharam neste álbum por esse viés. Mas nome de canção, letra e visual de encarte não salvam banda nenhuma.

Torture

Cannibal Corpse

Metal Blade

US$ 9,90

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