Possessão

7 mar

Embora seja agnóstico, adoro filmes de terror com o capeta na jogada. Coração Satânico, A Profecia, O Exorcista, até de Atividade Paranormal gostei. Mas um dos longas mais indispensáveis a lidar com o tema é Possessão, dirigido em 1981 pelo polonês Andrzej Żuławski. Estrelada por Isabelle Adjani e Sam Neill (que interpretou Damien em A Profecia 3 no mesmo ano), a trama atrai por sua dubiedade. À moda antiga, o horror é introduzido sem pressa, mas o mais estranho é que até a metade da história nada indica que haverá algo sobrenatural – e isso acontece sem enrolação. Muito pelo contrário, essa porção inicial também é muito boa.

Mark (Neill) e Anna (Adjani) passam por uma crise no casamento. Durante período de trabalho exaustivo de seu marido, a mulher coloca a relação em dúvida, impelindo-o a se demitir para passar mais tempo com ela e seu filho. Mesmo assim, Anna sai de casa, a princípio sem dar razões. Após insistência, ela admite que existe um amante. Confuso e descrente da postura de sua cônjuge, Mark contrata um detetive para averiguar como é o dia-a-dia de sua ex-mulher. Quando o investigador não retorna da visita que faz ao apartamento para onde ela se mudou, as suspeitas de que existe algo inexplicado aumentam.

Vi Possessão pela primeira vez em VHS da locadora 2001. Ao revê-lo anos mais tarde, em cópia digital que exaltava o fato de ser “sem cortes”, fiquei boquiaberto. Na versão em fita, a maioria das cenas do cramunhão (que aparece em quatro formas bem Resident Evil-oriented) tinha sido omitida. Embora o tinhoso faça sexo em uma delas, excluí-lo das demais foi um crime. Na verdade, principalmente na de sexo foi criminoso, por ser importante na conclusão da história. De qualquer jeito, há um mérito nessa cagada: a sugestão excessivamente branda de que havia um coisa-ruim participando da trama fazia com que o caráter metafórico da situação ganhasse mais relevância. A veracidade dos diálogos e as idas e vindas do casal ganhavam mais destaque. Faz muito sentido saber que Żuławski escreveu o roteiro deste longa durante seu divórcio da atriz Małgorzata Braunek (foto).

Desde as primeiras falas do filme, o pedido de divórcio parece iminente, mas é depois do rompimento entre os dois que as brigas ganham tons de loucura e delírio. Mark entra em parafuso com o abandono de Anna e mesmo ela parece estar completamente desequilibrada em todas conversas que se seguem a isso. Enquanto ele passa semanas solitário e delirante, à la Martin Sheen em Apocalypse Now, ela também tem surtos psicóticos e parece não se importar com mais nada – inclusive deixando uma vez seu filho por longo período abandonado em casa. Quanto mais o tempo passa, mais a revolta vai dando espaço a uma postura aleatória de ambos, que ficam cada vez mais distantes da possibilidade de restaurar a ordem.

Com relação ao elenco, Adjani tem uma performance memorável e que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. A cena do metrô, em que ela surta num túnel, talvez seja a mais emblemática do filme.

Destaque para os gritos, que poderiam fazer dela desde uma cantora de grindcore até uma rival de Diamanda Galás. Curiosamente, quando tentou cantar pra valer, a encantadora Isabelle fez isso:

Embora a possessão de Anna seja perturbadora, diversas outras cenas se destacam. Há uma em que a personagem fica olhando para um Cristo na cruz, numa espécie de choro misturado com gemidos, mantendo expressão de criança mimada querendo colo (impressão auxiliada pelo ângulo escolhido). É difícil entender o que diabos ela está fazendo aos pés da estátua. Fico com vontade de sugerir até conotação sexual nessa parte, mas depois de Multiple Maniacs, basta de putaria na igreja. Além dessa, outra sequência em que ela dialoga com a câmera é misteriosíssima. Me senti em Inland Empire nesse trecho, não sabendo mais se era a atriz ou a personagem, se ela falava com o demônio, com Mark ou com o espectador, se era puramente um monólogo filosófico, enfim, um mindfuck completo.

Para encerrar: e ela com esse óculos e sangrando, hein? Marilyn Manson definitivamente não inventou nada.

Mas o show não é apenas de Adjani. Żuławski trabalha inquieto, fazendo travellings circulares (cena da demissão) e enquadramentos pouco convencionais para momentos que funcionariam perfeitamente com câmera estática. Talvez isso seja um pouco fruto das extravagâncias dessa época tão dada a excessos. Mas o maior mérito do diretor foi achar o ritmo que permitiria essas múltiplas leituras. Claro, todos elementos fantásticos permitem que Possessão seja facilmente visto como horror. Mas também há espaço de sobra para que seja visto como um filme sobre a dor infernal do divórcio e os tormentos que dúvida ou revolta podem trazer à mente – algo muito bem encenado nas discussões do casal. Eu gosto de ver de uma forma quase satírica, unindo as duas possibilidades: um horror com seus elementos sobrenaturais permeando uma crise conjugal tão monstruosa quanto o Cão. Aliás, em certos casos, a certeza de um incidente de possessão poderia até aliviar o fim desastroso de uma relação. Fechando com uma salada roseana: bem que fim de romance é um pouco diabo na rua no meio do redemunho.

Possessão

Andrzej Żuławski

Gaumont

R$ 39,90

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