Cachalote

6 mar

Desde que vi a entrevista de Laerte no Roda Viva, tive vontade de reler Cachalote. Feita por Rafael Coutinho (filho do cartunista) e Daniel Galera, a obra conta com 320 preciosas páginas divididas em três partes. Toda em preto e branco, a HQ evidencia o bom momento dos quadrinhos nacionais, enaltecidos durante o programa da TV Cultura. O traço formidável de Coutinho dá tom singular às cinco melancólicas histórias contidas no volume.

Cachalote abre com Xu, uma estrela decadente do cinema chinês que tenta emplacar seu novo filme no Brasil, enquanto tem que explicar suposto envolvimento na morte de um companheiro de elenco. Segue para Hermes, um escultor rude que é chamado para atuar num filme experimental em que terá que interpretar a si mesmo. Passa por Vitório, que é vendedor em uma loja de ferragens e gosta de amarrar suas amantes nas horas vagas, até conhecer uma garota que o faz questionar seu fetiche. Visita Rique, um playboy que é obrigado a sair do país após desavenças com seu tio. E o arco termina com Túlio, que escreve contos e se encontra periodicamente com sua ex para saber novidades e ver sua filha. As vidas desses personagens aparecem intercaladas, mas eles nunca se encontram. Talvez a única coisa que compartilhem é a sensação de que a vida pesou demais sobre seus ombros.

Tendo amarguras no passado, é muito fácil se identificar com várias das figuras retratadas, embora sejam todos aparentemente muito diferentes. Estereotipados num primeiro olhar, todos revelam suas idiossincrasias ao longo da trama e afloram seu lado humano, principalmente por meio de erros estúpidos. Cachalote não teme desglamourizar seus personagens, expondo seus momentos constrangedores e humilhantes. A linguagem utilizada, coloquial, áspera e sem espaço para teatralismo, também ajuda a aproximar o leitor, com diálogos ora eloquentes, ora diretos e truculentos. Outro aspecto que talvez favoreça a empatia seja a impressão de que as histórias tem São Paulo como paisagem. Por vezes, parece que a Augusta está num quadrinho, a Vila Madalena noutro e logo se está fazendo um tour pela noite paulistana.

Essas centenas de páginas podem entreter e passar rápido, mas menos pela curiosidade do que virá a seguir do que por sua contemplação sincera de momentos difíceis na vida. Isso é feito de forma admirável, sem concessões ou artificialidade. Tudo parece real até demais. Os momentos oníricos literais (o incrível sonho de Hermes, desenhado sem bordas) e metafóricos (encontros com as cachalotes) dão apenas uma pitada de fantasia, acrescentada com bastante parcimônia e rapidamente esvaída nos sóbrios trilhos que conduzem a história. A imprevisibilidade e loucura da vida parecem não dar tempo para tais ilusões. Descrever um conto à amada, pular na piscina com a parceira ou cantar bêbado com os amigos podem ser alternativas para a felicidade momentânea, mas inevitavelmente tudo retorna ao normal, acabando com essas distrações e códigos que servem para tolerar a existência.

Tecnicamente, Cachalote é um volume que não fica devendo a graphic novels norte-americanas ou europeias. Os autores não economizaram no espaço, muitas vezes utilizando quadros de página inteira ou negligenciando qualquer balão por várias páginas. É uma narrativa visual exatamente do tamanho que deveria ser, sem restrições. Assim o caminho ficou livre para excessos corajosos, como o vazio predominante num trecho da história de Rique, e detalhes charmosos, como o rosto misterioso, oculto de cabo a rabo, da frágil amada de Vitório.

Essa coletânea de histórias poderia facilmente ser adaptada para o cinema. Sua dinâmica emana semelhanças com Magnólia, de Paul Thomas Anderson, e sua profundidade remete ao premiado A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Talvez alguns achem relações até com 21 Gramas, do Iñarritú. Mas comparações são ineficientes neste caso, já que Cachalote tem sua própria personalidade, inclusive em sua não-mensagem.

Explico: nenhuma das histórias aqui tem um desfecho convencional. É possível chegar ao fim de cada uma sem certeza do que foi defendido. O discurso é etéreo, mas não de uma forma chapa branca. Os autores parecem ter escolhido não entrar no mérito do que é solucionável ou não. A natureza humana é complicada e as relações sociais são ainda mais complexas. Muitas vezes pode não haver razão para que algo seja feito ou, pelo menos, não haver forças para expor essa razão. Cada vez mais, penso que esse é o caminho certo em narrativas: não sugerir soluções. Afinal, a vida parece ser composta por fórmulas, mas no fim, tudo é devir, tudo é redescoberta. A incerteza é a constante fundamental – mas arrisco dizer que é difícil não ser arrebatado pela poética de Cachalote.

Cachalote

Daniel Galera e Rafael Coutinho

Quadrinhos na Cia.

R$ 46

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