Atari

2 mar

Prefiro fazer textos sobre obras específicas, não sobre plataformas, mas esse será um post incomum. Revisitei o jogo Dragonfire dia desses e queria fazer uma entrada somente sobre ele, que provavelmente é meu favorito de Atari. Mas percebi que teria que dar enfoque aos dados históricos, industriais, comerciais, multimídia e até utilizar análise semiótica para atingir um bom número de caracteres. Sendo assim, resolvi fazer algo mais leve e que fosse um panorama do console e seus títulos em geral, que não raramente eram jogados no mesmo dia. Mas de qualquer jeito, por que não começar com Dragonfire?

O jogo inteiro é baseado em duas telas: uma em que você se agacha ou pula para escapar das labaredas que vem em sua direção e outra em que você tem que recolher tesouros sem ser atingido por fogo cuspido pelo dragão. Nele, como em praticamente todos os jogos de Atari, a pontuação é o aspecto fundamental para medir êxito. Cada tela aumenta a velocidade dos elementos inimigos e capricha mais no desafio, exigindo habilidade maior a cada passo. Felizmente, não há contagem de tempo e, portanto, não há razão para sair correndo contra as chamas feito um boi louco… ainda que eu tenha feito isso várias vezes quando criança. Em troca pela persistência, o jogador conhece novas cores do castelo e do dragão, além de tesouros mais sofisticados. Nessa segunda geração de videogames, essas recompensas, que parecem inócuas hoje, podiam ser celebradas como um mérito real. Era assim também no clássico Pitfall.

Encostar em monstro, cair em pântano ou ser engolido por crocodilo em Pitfall acionava um dos sons de derrota mais memoráveis até hoje. A musiquinha cotroça fazia você se retorcer por dentro pela cagada facilmente evitável. Mas era um jogo viciante, até por essa impressão de poder ser facilmente batido.

Lembro que quando joguei este cartucho pela primeira vez, no Atari de um amigo, ele me disse que Pitfall era uma adaptação de Indiana Jones. Eu estranhei e ele me explicou: “É, podem transformar qualquer filme em jogo.” Eu fiquei maravilhado com aquela frase, como se por algum recurso mágico fossem capazes de colocar rolo de fita do lado duma máquina, para que do outro ele saísse processado em videogame. Era uma ingenuidade deliciosa de quem ainda está na pré-escola mesmo. Muitos anos mais tarde, fiquei sabendo que havia de fato um jogo do Caçadores da Arca Perdida, mas não cheguei a jogá-lo. Pelo vídeo, parece valer a tentativa.

Aliás, se a geringonça mirabolante que imaginei traduzisse bem os filmes, provavelmente a adaptação de E.T. para Atari não seria uma das mais mal-avaliadas de todos os tempos. Existem várias lendas sobre o fracasso do título, algumas delas envolvendo a destruição e até o enterro de milhões de fitas no meio do deserto, para fingir que aquilo nunca existiu. Mito ou não, tudo indica que o jogo era bem ruim mesmo.

Cheguei a jogar uma versão recente de Haunted House que era pouquíssimo modificada e levava o nome do longa Blair Witch Project. Talvez essa ideia tenha sido pior que a do E.T., mas pelo menos nenhum cartucho físico foi feito e comercializado (ainda bem, até o jogo original era bem fraco sozinho).

Talvez a melhor adaptação feita posteriormente por programadores tenha sido a de Twin Peaks. Poucos jogos parecem tão divertidos e diferentes quanto Escape from the Black Lodge, baseado no último capítulo completamente surreal do cultuado seriado de David Lynch. Até em termos musicais e sonoros, esse é potencialmente um dos melhores jogos feitos para a plataforma. Uma pérola do chiptune e da inventividade visual. Pena não ter existido na época.

Embora títulos eróticos tenham existido em algum nível para todas as plataformas, é curioso que um dos mais insultuosos tenha sido feito ainda para Atari. Foi o caso de Custer’s Revenge. No jogo, você tem que desviar de flechas para chegar até uma índia presa e… estuprá-la. Isso causou fúria em grupos feministas da época. Jogos como X-Man (sem ligação alguma com a equipe de mutantes) e diversos cartuchos da  empresa Mystique, como Jungle Fever, Knight on the Town e Cathouse Blues tinha momentos de sexo. É estranho como ainda não havia claramente preconceito dos videogames como algo infantil, o que cresceu demais nas décadas posteriores. Custer’s seria uma tragédia nas mãos de crianças, sendo considerado um dos 10 jogos mais racistas lançados até hoje.

Por falar em títulos adultos de Atari que não joguei, Texas Chainsaw Massacre é um deles. Você controla o próprio assassino/açougueiro Leatherface buscando pessoas para moer. Muito errado também.

Enfim, existem muitas fitas interessantes lançadas nessa época e que hoje podem ser jogadas em flash na internet, sendo consideradas (erroneamente ou não) como abandonware, ou seja, obras que não são mais exploradas comercialmente por seus proprietários. Mesmo que seja difícil bater o martelo sobre a condição real desses jogos, já que vira e mexe são lançadas coletâneas de Atari para todo tipo de plataforma, vale a pena conferi-los nem que seja por vídeo. A seguir, colocarei outros favoritos:

Embora eu tenha tido pelo menos um console de cada geração a partir da segunda (hoje estamos na sétima), ainda vejo muitos méritos no Atari após tantos anos. Sempre parece que cada nova leva tecnológica torna a anterior obsoleta, mas isso não procede nem mesmo nessa fase dos anos 1980 – por mais que o joystick fosse duro, o som fosse primário e poucas coisas passem tanto uma impressão de 2D e pixels se movendo quanto sua imagem. Mesmo com esses empecilhos, recomendo para todos que tenham nascido uma geração depois ou várias, que tentem passar nem que seja meia hora com jogos dessa época, para entender melhor a gênese dessa linguagem, que acredito que se tornará hegemônica nas próximas décadas. Se, nesse começo da história dos videogames, a pontuação era o fundamental, pela quarta geração a capacidade narrativa das fitas já tinha abalado muito essa base. Hoje então, temos histórias engenhosas, mitologias originais e um grau muito forte de interatividade.

Mas insisto que há uma felicidade única em jogar Atari. Acho que existe um tipo de diversão muito particular em cada geração de consoles, isso se não há uma especificamente para cada um deles. Pode haver nostalgia nesse discurso, mas acredito de verdade que a relação com cada jogo tem seus méritos, mesmo que fosse nesse caso pela jogabilidade simples e por missões reconfortantes. Aliás, talvez essa seja minha maior saudade com esse console: o conforto. Eu sinto isso ao jogá-lo (e, de forma mais branda, ao jogar Nes). Algo que dá paz de espírito, como se tudo estivesse apenas começando, com as regras mais fundamentais – não diferente do que sinto ao lembrar dessa época de pré-escola em geral. Um retorno à inocência, a um lugar onde os primeiros erros e acertos são feitos, mas tudo faz parte do aprendizado. Talvez o que pessoas das gerações anteriores à minha podem sentir um dia voltando a jogar coisas da primeira geração, como Pong. Ou então, ainda antes, sentando para jogar bolinha de gude, por exemplo. Particularmente, sinto isso jogando Atari.

Atari

Atari Inc.

14/10/1977

[jogos disponíveis em coletâneas, flash e emuladores]

3 Respostas to “Atari”

  1. Pedro Godoy março 10, 2012 às 1:44 am #

    Não é por nada não, mas ET é realmente muito ruim. Um dos piores jogos de todos os tempos ao lado de Pizza Chef, também do Atari 2600. Mas ainda penso em jogá-los novamente só pra comprovar se são ruins mesmo ou se é apenas birra minha. Por outro lado Keystone Kapers é certamente o melhor jogo do Atari. Só senti falta de clássicos como Megamania, Crackpots e Frostbite.

    • jacksorridente março 10, 2012 às 2:45 am #

      Cara, eu nem manjava esse Pizza Chef… Fui ver um vídeo dele no Youtube e realmente parece bem ruim… O que é garantido sem nem precisar jogar é que a trilha sonora é definitivamente a pior! Keystone é bom pa porra… Desses outros que você falou, eu acho o Frostbite legal e tinha esquecido totalmente do Megamania! Ele é divertido mesmo! E é mais preza ainda que é uma cópia da Enterprise, né… Já o Crackpots nunca joguei, mas vi um vídeo aqui e achei animal… Lamentável não ter encontrado isso naquela época!!

Trackbacks/Pingbacks

  1. 20 jogos indispensáveis de NES « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 9, 2012

    […] de outros games do console de 8 bits da Nintendo e senti tanta nostalgia quanto no post sobre o Atari. Como não joguei diversas fitas importantes, como Final Fantasy, Metroid e The Legend of Zelda, e […]

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