Parábola

1 mar

Adquiri esta revista numa feira de usados da Gibiteca Henfil, no começo dos anos 1990, quando ela ainda era apenas parte da Biblioteca Viriato Correa. A troca provavelmente foi feita com esse Alberto, que bem cuzão assinou seu nome na prancha do Surfista (observe acima). Da minha parte, estavam gibis da Turma da Mônica e um volume do Recruta Zero que me mordo até hoje de ter passado. Não consigo recordar se era “A Morte do Recruta Zero” ou somente um especial, mas lembro que diversos grandes artistas faziam sua interpretação do personagem de Mort Walker. Tinha até Frank Miller e o Recruta Zero fazendo harakiri (como rezo para que isso não seja invenção da memória afetiva). De qualquer jeito, não posso reclamar. Essa graphic novel, que traz a colaboração entre Stan Lee e Moebius chamada Parábola, é facilmente uma das cinco HQs mais importantes que li na vida.

De um lado, o mentor da Marvel, responsável pela criação de inúmeros personagens icônicos, como Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Thor, os mutantes do X-Men – e a lista passa dos 300. Do outro, o renomado quadrinista francês, co-criador da Métal Hurlant/Heavy Metal e artista de obras como O Incal, Garagem Hermética e Arzach. A coisa não pode ficar muito melhor que isso: no papel, esse é um dos crossovers (para usar um termo dos quadrinhos) dos sonhos. E o melhor é que eles não decepcionam, apesar do curto número de páginas. A história foi lançada pelo selo Epic Comics (algo equivalente à Vertigo na Marvel) e ganhou o prêmio Eisner de 1989 na categoria de Melhor Série Limitada, por ter sido publicado inicialmente em duas partes. A Comic Con de San Diego, evento no qual a premiação foi realizada, tinha sido há dois anos o local onde os dois mestres tinham fechado o acordo para concretizar a parceria.

Em Parábola, Galactus vem à Terra para inaugurar “uma nova era”. Ele diz aos terráqueos que suas leis não faziam mais sentido e todos deveriam abdicar de seus bloqueios morais para serem livres. Convencida por sua palavra, boa parte dos humanos inicia ondas de violência e roubo pelas ruas. Paralelamente, um líder religioso decadente chamado Colton decide se autodenominar porta-voz do ser para tornar-se “o maior dos evangelistas” – claro, sem maiores reflexões sobre a índole do suposto messias. Irado, o Surfista Prateado, que tinha sido arauto do vilão no passado e colhido a promessa de que jamais a Terra seria ameaçada por sua fome (o colosso é conhecido como “devorador de mundos”), vai ao seu encontro para se assegurar de que o acordo não seja quebrado. Mas o maior problema não será tanto convencer o gigante, e sim a população que já está crente de sua natureza divina.

A sugestão de trabalhar com o Surfista Prateado partiu de Moebius, que considerava um dos personagens criados por Lee com mais potencial filosófico. E, de fato, se alguém parar para pensar numa figura prateada, sábia, misteriosa e introspectiva que se desloca pelo universo em uma prancha, isso é muito mais a cara da Heavy Metal que da Marvel. Stan se preocupou em fazer uma história mais profunda que de costume, “adequada ao estilo e temperamento” do artista francês – e conseguiu. Tratar do polêmico tema das religiões instantâneas e seus profetas inescrupulosos sempre é arriscado, mas tudo é feito de forma enxuta e com as ilustrações de Moebius, aqui menos rebuscadas, mas sempre poéticas. Algumas passagens ficaram na minha cabeça por todos esses anos e fizeram parte do que busquei como norte moral, como esse diálogo entre o Surfista e Elyna, irmã de Colton.

Hoje, tentando absorver essas páginas com um olhar mais crítico, há algo que me incomoda. Há valores excelentes sendo discutidos de forma vistosa, mas tenho que admitir que os diálogos às vezes ficam didáticos demais. Veja, por exemplo, como a conversa entre o Surfista e seu inimigo pode soar artificial por querer evidenciar demais o discurso por trás da cena, talvez merecendo tratamento mais sutil.

Mas me limito a esse problema, de um Stan Lee um pouco piegas e até panfletário. Talvez seja o mais irrelevante para notar aqui, afinal ele está tentando ser universal, facilmente compreensível, literal, leve e objetivo, e tudo isso portando uma mensagem espinhosa. O que está sendo criticado é a intolerância quanto à verdade dos outros. As demonstrações vazias de poder feitas por Galactus e seu tamanho assustador proporcionam fascínio ao povo, enquanto argumentos bem construídos pelo Surfista são vistos rapidamente como heresias. Não querendo me repetir, mas assim como no filme O Nevoeiro, no qual basta uma estranha neblina e rumores desencontrados para que o pânico se instaure e aproveitadores conduzam massas a seu bel-prazer, Parábola também é um estudo sobre a legitimação ligeira de um profeta diante de uma adversidade não-compreendida. A história chega a fazer uma breve (mas incisiva) ponderação sobre o íntimo dessas figuras e discute até que ponto é válido abraçar incondicionalmente quem se denomina como salvador, independente de suas atitudes ao longo do caminho. O conflito principal dura pouco, mas é exposto de forma emblemática e redondinha. A moral final pode remeter um pouco a Watchmen e às mentiras supostamente necessárias para chegar à paz.

Uma das melhores surpresas dessa publicação é conter prefácio de Stan Lee e posfácio de Moebius, nos quais cada um faz considerações sobre a parceria. Lee se limita a um texto sobre o primeiro encontro com Moebius e suas impressões da conversa. Já o desenhista vai além, comentando diversos aspectos pessoais e técnicos. Ele relata, por exemplo, como foi trabalhar pela primeira vez com o “método Marvel”, em que recebeu inicialmente apenas um enredo detalhado, sem esboços ou diálogos, diferente do que tinha visto até então com autores como Jodorowsky e Charlier. Algo incômodo em seus escritos é a autocrítica, muito ferrenha às vezes. Ele questiona se faltou ação em seus desenhos, se será europeu demais para os americanos, americano demais para os europeus, se não conseguiu manter a regularidade em seus desenhos, se é ruim por não saber desenhar cabelos como Manara e até mesmo se foi capaz de criar bem a sua versão do Surfista – menos atlético e mais adepto do tai chi chuan, em sua opinião. Não obstante, essa espécie de “making of” é preciosíssima, com direito a esboços abandonados, storyboards, estudos de personagem e indicações para coloração. Se a história é curta, a análise dos dois autores é mais longa e apenas contribui para que Parábola seja inesquecível.

Parábola

Stan Lee & Moebius

Epic Comics (Marvel)

R$ 10

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