Multiple Maniacs

29 fev

Aproveitando o clima de midnight movies, deixado pelo Liquid Sky e por essa semana com Mostra John Waters no Cinesesc, assisti Multiple Maniacs. Desde que vi trechinhos do longa, principalmente com esta lagosta gigante (Lobstora) estuprando o ultrajante Divine, pensei que o filme serviria para entender ainda mais os limites do cinema alternativo. E não me arrependi: é uma obra genuinamente capaz de currar o cérebro.

A história começa com um show da trupe itinerante Cavalgada da Perversão, comandada pela vigarista drag queen Divine. O objetivo é colher (e roubar) dinheiro de cidadãos curiosos para ver a sequência de atrocidades morais que o grupo tem a oferecer. Os números no espetáculo incluem tortura, exposição de abstinentes, comedores de vômito, entre outros. Durante essa performance, o apresentador do freak show (David Lochary) é abordado por Bonnie (Mary Vivian Pearce), que insiste em fazer parte do coletivo. Sem o aval de Divine, que é namorada dele, os dois iniciam secretamente um caso. A partir disso, tanto traidor quanto traída(o) começam a planejar a morte um do outro.

É difícil encontrar algo mais ofensivo que Pink Flamingos, maior clássico de Waters. E realmente Multiple Maniacs não consegue isso inteiramente, embora conte com praticamente o mesmo elenco (o grupo de atores e demais profissionais utilizados na maioria dos filmes de Waters é conhecido como Dreamlanders) e diversas cenas igualmente repulsivas. Ainda assim, não dá para competir com Divine comendo cocô de cachorro, tendo momentos incestuosos com seu filho criminoso e dialogando com sua mãe que fica presa num cercado e se comporta como um bebê. É tudo perturbador em outro patamar.

No entanto, há um charme específico em Multiple Maniacs que supera Pink Flamingos: tudo parece radicalmente caseiro. Realizado com orçamento risível de US$ 5.000, ele é todo em preto e branco e sua edição parece ter sido feita em boa parte conforme o longa era rodado. Por exemplo, a cena em que Divine dirige até sua casa tem diversos ângulos e diferentes tomadas, mas uma sujeira no canto superior esquerdo da tela perdura do começo ao fim da sequência, sugerindo que tudo foi gravado sem hiatos de gravação ou reshoots. É tão mambembe que cria uma inesperada empatia: parece algo feito por um amigo em um fim de semana, ou feito por você mesmo tendo caído uma câmera em seu colo no dia anterior. E não quero aqui diminuir a nobreza de Rebobine, Por Favor, mas ele é superado pelo filme de Waters no que se refere a exaltar a criação cinematográfica do cidadão comum – o que é venerado por Michel Gondry e suas versões “suecadas” (remakes amadores) de clássicos da telona.

Por mais que a escrotice de Waters possa repelir, poucos longas passam tanto essa sensação de proximidade técnica e criação democrática. É um cinema livre para falar sobre o que quiser, sem roteiro específico, produção nas coxas, atuações podres, edição precária de vídeo e gravação e mixagem de áudio na marra. Divine é estuprado ao som de rock foxtrot e depois copula dentro de uma igreja com uma falsa beata, atingindo o êxtase ao som de He’s Got the Whole World in His Hands. Parece piada, e deve ter surgido como, mas como muitas coisas no filme, não só funciona como fica bom.

Aproveitando o ensejo: em termos de heresia, Multiple Maniacs se destaca bastante. Uma cena em que Divine é penetrado por uma mão com rosário (“rosary job”) é permeada pela caminhada de Jesus Cristo para a crucificação, com narração bíblica acompanhada de gemidos. Cada queda no caminho do messias é citada como um mantra em busca do clímax. Ah, e para completar o pecado, Waters intercalou imagens dum cara qualquer injetando ao lado de um santo. [E eu pensando que Burzum queimando igrejas era o ponto máximo.]

Desde os créditos iniciais, rolados sobre uma trilha sonora de apenas um compasso em loop, passando pelas mortes com revólver de espoleta e chegando a uma Divine transtornada e quase transmutada em Leatherface, o filme é extremamente tosco, mas viciante ao mesmo tempo. É legal ver uma filmagem em que não há nem marcação de passos dos personagens, como quando a trupe está indo embora de uma vizinhança e tanto a câmera quanto David Lochary encontram problemas com galhos muito baixos em sua trajetória. É uma naturalidade muito rara, mas muito possível nessa época, quando a vulgarização da filmagem ainda nem era economicamente viável. Lembro de Kevin Smith comentando o quanto ainda teve que passar por um processo longo de financiamento, aluguel de equipamentos, estúdio e ilha de edição para fazer seus primeiros longas, enquanto hoje qualquer um pode fazê-los com câmeras portáteis e acessíveis. A estreia de Smith em circuito foi feita quase 25 anos depois de Multiple Maniacs. Aliás, bate com o período em que Harmony Korine, certamente muito influenciado por Waters, fez Gummo, Kids e Julien Donkey Boy.

“I love you so much i could shit.” A frase de David Lochary para Bonnie passa o espírito do filme e da protagonista Divine. Uma sessão de Multiple Maniacs é igual à sua cena inicial: uma exposição extrema que pode até fazer virar o olho ou falar mal, mas não o suficiente para querer parar de ver. Até pelo contrário, toda aquela bizarrice logo ganha tom de imperdível.

Multiple Maniacs

John Waters

Dreamland Productions

[exibido no Cinesesc, não disponível em DVD no Brasil – mas a Mostra ainda tem sessões de Hairspray e Polyester nesta quinta-feira (01)]

2 Respostas to “Multiple Maniacs”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Possessão « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 8, 2012

    […] pés da estátua. Fico com vontade de sugerir até conotação sexual nessa parte, mas depois de Multiple Maniacs, basta de putaria na igreja. Além dessa, outra sequência em que ela dialoga com a câmera é […]

  2. Saladatas (15 a 21 de março) « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 15, 2012

    […] norte-americano, incluindo drive-ins e sessões da meia-noite. O filme conta com a drag queen Divine em um de seus momentos mais extremos. Doze anos antes, era lançado Acossado, maior clássico da […]

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