Liquid Sky

28 fev

Hoje tive o prazer de assistir Liquid Sky pela terceira vez. Tinha visto o VHS em algum momento entre 1999 e 2000, após indicação de um camarada cinéfilo, e revi em 2009 para fazer um trabalho da faculdade sobre midnight movies. Essa película de 1982 foi uma das últimas a receber tal rótulo, dado a títulos que ficavam em circuito apenas em sessões da meia-noite nos Estados Unidos, principalmente em Nova York. Muitos deles, como Pink Flamingos, Rocky Horror Picture Show e El Topo ficaram meses ou até anos seguidos sem sair de cartaz, sempre exibidos naquele horário. Na maioria das vezes, eram vistos pelo mesmo público, que cultuava essas obras e fazia de cada ocasião uma festa. Era comum que os espectadores gritassem falas junto com o filme, vestissem roupas semelhantes às dos personagens e fizessem gincanas dentro da sala. No caso dessa atípica ficção-científica, não são necessários nem vinte minutos para entender por que um desses cultos foi criado ao seu redor.

É penoso fazer uma sinopse de Liquid Sky, já que a experiência sensorial e alguns diálogos pontuais dizem muito mais do que a trama em si, bem estapafúrdia em certos pontos. Mas, trocando em miúdos, o filme acompanha um dia na vida de Margaret (Anne Carlisle), uma modelo/performer que reside em Nova York, e Johann (Otto von Wernherr), um cientista alemão que chega à cidade investigando alienígenas. O caminho deles se cruza quando uma espaçonave (do tamanho de um prato) pousa sobre o apartamento da garota e experiências começam a ser conduzidas no local. A princípio, as atividades extraterrestres envolviam assassinatos em busca de heroína, mas assim que os intrusos descobrem o barato do orgasmo humano, trocam de alvo. Por meio de lâminas transparentes, começam a extrair substâncias do cérebro de suas vítimas enquanto elas chegam ao clímax durante o coito – e é para isso que eles escolhem a casa de Margaret, mirando seus parceiros e parceiras.

Ao tentar definir Liquid Sky para dois amigos, arrisquei “uma mistura de David Bowie, Plano 9 do Espaço Sideral e vídeo-arte”. Mas ele é melhor e mais original que qualquer brincadeira imediata como essa. Ah, outro adjetivo importante: excessivo. O acúmulo de modelitos extravagantes, cores saturadas em tinta ou neon, experimentos eletroacústicos, danças descontroladas e efeitos visuais psicodélicos pode ser estafante. Embora não haja nenhuma indicação concreta de que o longa se passe num futuro, mesmo hoje em dia a presença de alienígenas viciados em sexo somada à rotina dos clubes vanguardistas nova-iorquinos deixa a impressão de que ainda não chegamos a essa era. A música que Adrian (Paula E. Sheppard) canta em uma das cenas iniciais me lembrou algo entre Objeto Amarelo e o que o Kraftwerk estava fazendo uns cinco anos antes do filme. Seria algo que talvez tocasse de quarta-feira no Milo Garage (que, infelizmente, segue fechado).

Apesar de ser tosco em alguns aspectos, com um bom grau de do it yourself, há um refinamento que separa Liquid Sky de vários midnight movies, inclusive no que diz respeito a movimentos de câmera e enquadramentos. Também as sessões fotográficas e performáticas do grupo de Margaret são impagáveis, rivalizando com demonstrações do tipo hoje em dia. Me fez lembrar o que o artista plástico brasileiro Aguilar fazia por aqui nessa mesma época (incluindo cantoras dando peixinho em telas brancas junto com baldes de tinta).

 Justiça seja feita: Klaus Nomi também fazia performances tão insólitas quanto no mesmo ano de Liquid Sky.

E falando no Klaus, uma das primeiras estrelas a serem levadas pela AIDS (apenas dois anos após o primeiro caso documentado da doença), é preciso apontar que a questão da sexualidade é uma das tônicas na história. Permeado por estupros, promiscuidade, discussões sobre bissexualidade, paranoia com DSTs e relações libertárias, o longa exala sua preocupação com os rumos seguidos pela sociedade nessa área. Inclusive faz isso sem ser explícito como John Waters, por exemplo, também ícone dos midnights.

“Bom, isso quer dizer que orgasmos são perigosos?”, pergunta uma personagem ao cientista. Com um corte seco, fica sem resposta o receio que provavelmente ecoou em toda aquela geração. E não é somente esse tema que é abordado em Liquid Sky, apesar da relativa escassez de falas. Opções morais, dependência química, dificuldade em entender a aparência do outro, criação de estereótipos e guerras entre eles, tudo está sendo discutido ali a toda hora, seja com sarcasmo ou tom de manifesto. Não é muito diferente do que foi escancarado na desventura de Wyatt, Billy e George em Easy Rider.

Todo esse clima de ebulição e incerteza, natural dessa época, está bem ilustrado no filme e só valoriza mais a escolha por uma potência alienígena como catalisador dessas reflexões. Da mesma forma que a AIDS foi tachada como “câncer gay” em seu início, a morte por essa força desconhecida causa todo tipo de má interpretação e confusão nos personagens. Margaret, modelo excêntrica e andrógina que está diretamente associada a todas as mortes, é execrada e adorada ao mesmo tempo por quem está ao seu redor. Isso dispara um monólogo final, que é seguido por ritos de libertação e culmina em um desfecho psicodélico que pode remeter até ao de 2001: Uma Odisseia no Espaço – ainda que sem grandiosidade. Aliás, a câmera abrindo o plano no início de Liquid Sky parece dialogar com outro longa de Kubrick, feito um ano antes.

Há uma sensação singular em Liquid Sky. Talvez mais que nostalgia da época não vivida, a nostalgia bem específica das noites nesses anos 1970/1980 no meio vanguardista de Nova York. O tema musical insiste e impregna o suficiente para ajudar na imersão neste clima de aventura, presente até nas situações mais triviais. A criatividade artística e o mistério da noite se juntam para forjar a ilusão de que se está num mundo feito de sonho. Aquela impressão sem igual de que não há mais regras e tudo pode acontecer.

Liquid Sky é uma experiência audiovisual intensa do início ao fim. Pode ser cansativa, mas só se a pessoa se desligar da trama – algo fácil com toda oferta de imagens e sons tão peculiares. É um cinema raro e que certamente conduziu celebrações da loucura em suas exibições à meia-noite. Só lamento que Anne Carlisle não tenha se tornado diva da sétima arte. Mas tudo bem, sua beleza não poderia ter sido melhor traduzida do que nessa obra exuberante do cinema underground.

Liquid Sky

Slava Tsukerman

Cinevista

R$29,90

Uma resposta to “Liquid Sky”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Multiple Maniacs « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 1, 2012

    […] o clima de midnight movies, deixado pelo Liquid Sky e por essa semana com Mostra John Waters no Cinesesc, assisti Multiple Maniacs. Desde que vi […]

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