Fringe

26 fev

Quando revi essa imagem, tirada do seriado Fringe, me lembrei de quando David Lynch promoveu (de forma bem aleatória) seu último longa, Inland Empire. Ele permaneceu ao lado de uma vaca em um gramado enquanto dava autógrafos, posava para fotos e respondia perguntas de fãs. A imagem também me lembrou como este programa é um dos mais estranhos e cativantes desde Twin Peaks, também feito por Lynch. A influência já foi admitida com citações ao clássico, como na vez em que o dr. Walter (John Noble) utilizou os mesmos óculos do dr. Jacoby (Russ Tamblyn).

É possível que surja mais uma semelhança, desagradável, entre os dois seriados: o cancelamento antes da hora. É verdade que a truculência em Twin Peaks foi pior: bastou uma queda na audiência após revelar o assassino de Laura Palmer, por exigência da própria rede que exibia o programa na época, e o contrato foi rescindido. Nesse aspecto, a Fox tem demonstrado uma paciência mais animadora, ainda mais para uma série pouco receptiva a telespectadores casuais. É só lembrar como a própria HBO não viu grande problema em cancelar o maravilhoso Carnivàle ao final de sua segunda temporada, apesar do sucesso de crítica e acúmulo de prêmios. Fringe tem escapado bem, mas durante os próximos 30 dias, em que a produção entra em hiato, os executivos do canal discutirão se ela terá mesmo uma quinta temporada.

No seriado, uma detetive do FBI investiga um incidente, aparentemente sobrenatural, e por descobrir mais do que deveria, é convidada a integrar uma seção secreta dedicada a esses casos, a divisão Fringe. Auxiliada por um cientista experimental de Harvard, que estava internado em um sanatório há anos, e por seu filho trambiqueiro, que completa a equipe, ela desconfia cada vez mais que sua presença naquelas investigações não se deu por acaso, podendo haver ligação entre esses crimes e episódios capitais de sua infância. A partir daí, é possível esperar conspirações de metamorfos, seres que transgridem nossa sensação temporal e toda espécie de evento paranormal. Não necessariamente por ser também financiado por JJ Abrams, mas aqui também cada fim de temporada representa a abertura de uma nova percepção da série, como em Lost (há uma ilha, então há uma base subterrânea, então há diversas, então não há mais apenas uma ilha, não há mais apenas uma linha temporal, etc). Se Fringe começou com um universo e pouco depois abriu um universo paralelo, atualmente o que há é uma corruptela dos dois universos anteriores e o começo de junção entre um dos universos normais com um alterado. Definitivamente, não é possível acompanhar o programa sem vê-lo desde o início.

Se a especulação sobre a natureza das dimensões que não percebemos sempre foi um dos maiores motes para a ficção-científica, é possível dizer que Fringe explora bem não só uma dessas possibilidades, mas todas. Tendo como base as explicações do vídeo abaixo sobre as nove dimensões teorizadas, a consciência do futuro (quarta dimensão) ou de futuros possíveis (quinta) e a alteração de um passado para conseguir todo um novo leque de futuros antes impossíveis (sexta dimensão) estão presentes. Até aí, não está muito longe das obras sci-fi em geral. O que é interessante é que a série lida também com as outras três: a concepção de mundos paralelos em que decisões de todos os tipos foram feitas de forma diferente (sétima dimensão), de mundos paralelos em que nem as leis da física necessariamente existem da mesma forma (oitava dimensão) e a capacidade de existir em qualquer forma, tempo ou mundo (nona dimensão). Por mais que qualquer um desses elementos seja facilmente encontrado em uma história fantástica, é difícil achar uma que consiga contemplar todos, ainda tendo o mérito de ser saga complexa (e, portanto, sempre com ameaças de audiência) e sem grandes furos ou incoerências.

É possível que essa abordagem mista das diferentes dimensões seja uma tendência. Atualmente, tenho jogado Final Fantasy XIII-2, que me lembrou demais essa polivalência. Também existem diferentes tempos, paradoxos a serem resolvidos, seres que habitam todos esses tempos simultaneamente, além da busca por um elemento-chave que é imprescindível para o  futuro considerado como ideal.

Não sou a favor do seriado ficar indefinidamente na televisão – os fãs de sci-fi bem sabem o mal que isso fez para Arquivo  X e o desfecho decadente que o programa amargou devido a isso. Mas acho correto que ele complete um arco de seis temporadas, podendo inclusive dar origem a spin-offs. Um executivo da Fox disse outro dia que os membros da empresa não são burros e perder dinheiro não está em seus planos. E, verdade seja dita, com a queda progressiva de audiência, eles já foram bem heroicos de segurá-la até agora – e sem minar a qualidade dos episódios, o que é bem honroso também. Alcatraz também não ameaça mais a série, já que sua audiência caiu praticamente pela metade entre a estreia e o sétimo episódio. Agora resta torcer para que Fringe possa ser acompanhado na realidade vigente por mais um tempo.

Fringe

JJ Abrams, Alex Kurtzman, Roberto Orci, Jeff Pinkner, JH Wyman

Fox

Exibido no Brasil pelo Warner Channel (terças às 22h) e pelo SBT (sextas às 3h)

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