O Evangelho do Coiote

25 fev

O Homem-Animal não é um super-herói cativante por si só. Quando Grant Morrison foi incumbido, no final dos anos 1980, de dar continuidade à sua história, ele era praticamente uma sobra – para não dizer um erro. Não à toa, ele era membro de um grupo de heróis chamado Forgotten Heroes. E é incrível como o quadrinista conseguiu virar a mesa e torná-lo inesquecível. Claro, todos esses personagens que em algum momento fizeram parte do selo Vertigo (como Sandman, Hellblazer e Preacher, por exemplo) merecem atenção, por serem escritos e desenhados por artistas que não compactuam com o olhar mais linha de montagem das HQs – o que foi comum até demais em editoras como a Marvel e a DC. Tanto Grant Morrison quanto Peter Milligan fizeram edições do Homem-Animal totalmente à margem de qualquer preocupação desse tipo. Mas existe uma história específica que até hoje me emociona demais. No Brasil, ela ficou conhecida como O Evangelho do Coiote.

Publicada aqui em julho de 1990, cerca de dois anos depois de sua edição original nos EUA, a história relata o encontro e o confronto entre um caminhoneiro sem nome e o coiote Astuto. Ao dar carona para uma prostituta em uma rodovia no meio do deserto, o motorista fala sobre a gratidão que tinha por seu amigo Billy ter lhe apresentado Jesus. Distraído durante a conversa, ele atropela um coiote, mas continua seu caminho sem maiores preocupações. Semanas depois, sua mãe morre de câncer, ele perde o emprego, Billy morre em um acidente e até mesmo a prostituta daquele fatídico dia no deserto é assassinada. Convencido de que o atropelamento daquele dia estava ligado à sua tragédia pessoal, ele volta ao deserto para um último confronto com o que julga ser o satã. Enquanto Astuto foge de seu algoz, ele encontra o Homem-Animal, a quem decide revelar seu evangelho e explicar o que o trouxe a este mundo.

Encontrei essa DC 2000, número 7, no consultório da dentista onde ia nessa época. Eu tinha apenas 7 anos quando li essa história e, não sei direito explicar, mas mesmo nessa idade fui muito impactado por seu conteúdo. Já estava migrando de Turma da Mônica para Marvel e DC, mas essa história, somada a uma outra do Surfista Prateado encontrando o Homem-Impossível, me fez entender que ali estava o que realmente merecia ser lido. Mas com destaque para essa. Um coiote de desenho animado que decide se rebelar contra sua sina, a ira de Deus diante deste insulto, a transmutação de Astuto em um animal de verdade, sua condição de mártir ao lado do caminhoneiro, enfim, tudo veio cedo demais. Foi como quando vi Akira no cinema também mais ou menos nessa idade. Meu pai me levou porque era desenho animado e tinha motos – claro, não contando a história intrincada, o potencial filosófico, a ultraviolência e a nudez presentes no filme.

É uma pena, mas conheço relativamente pouco de Grant Morrison. Só li parcialmente o trabalho dele com Homem-Animal e Patrulha do Destino, outra HQ também muito afiada no tratamento psicológico/filosófico de super-heróis fraturados pela condição humana. Quem leu Os Invisíveis ou a época dele à frente de Batman e X-Men fala muito bem de seu trabalho. O que posso garantir a essa altura é sua coragem iconoclasta. Um dos momentos máximos disso foi quando finalizou sua temporada com o Homem-Animal justamente dialogando com o próprio personagem dentro da revista. Na história, ele chega a apontar partes do roteiro para o herói – exercício interessantíssimo de metalinguagem nos quadrinhos.

Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud, é outro grande exemplo de metalinguagem, no qual o autor atinge um panorama conceitual esplêndido da nona arte. Ainda assim, acho que Morrison se sobressaiu por brincar seriamente com isso dentro da ficção, sem pretensões diretamente didáticas. É tão visceral que transcende a linguagem em que foi feito e torna-o um dos mais instigantes diálogos entre criador e criatura que já vi em qualquer suporte artístico.

Essa fase do Morrison foi lançada antes da fundação do selo Vertigo, mas tanto a dele quanto a do Milligan depois, que é mais psicodélica ainda em certos momentos, mereceria facilmente esse carimbo.

O nível de seriedade com que essa fase do Homem-Animal trata a linguagem dos quadrinhos é acima de qualquer suspeita, estando longe de menosprezar o leitor. E o melhor é que, assim como os outros grandes desse filão, como Neil Gaiman, Alan Moore e Frank Miller, Grant Morrison sabe exprimir muito bem em palavras todas suas ideias tão singulares. Todos 26 volumes escritos por Morrison valem a pena, mas essas 24 páginas que trazem o Evangelho do Coiote são essenciais.

O Evangelho do Coiote

Grant Morrison, Chas Truog e Doug Hazlewood

DC

R$3,10

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