Mount Analogue

21 fev

Cada álbum novo de John Zorn é um desafio. Prolífico, o saxofonista já participou como compositor, instrumentista, regente e/ou produtor de mais de 400 gravações desde os anos 1970. Seu leque sonoro é vasto: jazz, rock, música de câmara, klezmer, cartoon music, trilhas sonoras, canções natalinas – e a lista vai longe. O curioso é ver que não há fórmula nessa equação. É como se, a cada lançamento, o músico propusesse um enigma separado em faixas. A esfinge aguarda não apenas uma escuta, mas várias, acompanhadas de pesquisas acerca do que pode ter inspirado aquelas obras. Livros, filmes, músicas, filosofia, misticismo, celebridades, tudo pode motivar mais uma adição a esse extenso catálogo. Mount Analogue, lançado no fim de janeiro, é mais uma exótica amostra que leva essa assinatura tão singular.

Mount Analogue contém apenas uma faixa de 38 minutos. Sua variedade sônica, em timbres e gêneros, é formidável. Por mais que haja a primeira impressão de jazz contemporâneo com elementos étnicos, também estão presentes laivos de música erudita contemporânea, cartoon music e música folclórica – tudo combinado organicamente por um Zorn cada vez mais amadurecido. Predominantemente instrumental, há espaço para sons vocais agressivos e pontuais, que me lembraram o coro de Atom Heart Mother, do Pink Floyd, neste trecho:

Um dos integrantes do grupo Banquet of Spirits, que é regido por Zorn no álbum, chega a arriscar até canto gutural ao estilo dos monges tibetanos.

Tenho a impressão de que, infelizmente, ele não chega a fazer o gutural difônico, típico dos tuvanos. Esse é um canto mais impressionante ainda por ter a mesma voz fazendo duas linhas melódicas simultâneas, graças aos harmônicos criados por ela. Essa é uma técnica muito rara ainda hoje.

Terminada essa breve divagação sobre cantos insólitos, enalteço a escolha por uma formação instrumental. Neste caso, a ausência de letras deixa a obra mais aberta e fácil de se escutar repetidas vezes. Ainda assim, aos que procurarem um sentido mais concreto no álbum, bastará ir atrás do romance homônimo que inspirou Zorn. Mount Analogue foi o último livro de René Daumal, escrito nos anos 1950 e não-finalizado devido à morte do autor. Ele fala sobre a descoberta e escalada de uma montanha oculta, que só poderia ser vista de um local específico e quando os raios de sol atingissem seu cume por um certo ângulo. Achá-la seria encontrar “uma porta para o invisível”. O Monte Análogo existe em português, graças a uma edição da Horus.

Lendo a sinopse do livro, lembrei de A Montanha Sagrada, do Jodorowsky. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que o romance era considerado uma das maiores influências para o filme.

A capa do álbum de Zorn mostra a pintura Ascensão ao Monte Análogo, da surrealista Remedios Varo. A primeira edição do livro contava com esta e outras de suas telas, como Costurando o Manto da Terra.

Talvez esse repertório imagético seja mais benéfico do que palavras para a escuta de Mount Analogue. O ouvinte fica mais blindado de sentidos pré-definidos e, portanto, aberto a uma experiência mais mística. Fica a vontade, ao fim, de repetir essa viagem ao impossível buscando novas sensações, que são abundantemente evocadas por essa composição. E não de forma difícil: embora seja música instrumental de ponta, o desafio ao ouvido não é árido. As dissonâncias são contextualizadas, não-aleatórias, e as seções são bem demarcadas, apesar de se deslocarem muito organicamente na longa estrutura da peça. Não chega a ser easy listening, mas é escuta prazerosa. Aliás, é isso que pode se esperar do Zorn quando ele vier ao Brasil em março para se apresentar no Cine Joia ao lado de seu projeto de jazz Masada. Será, como neste álbum, mais uma demonstração de como é possível ser inovador nesse terreno sem ser hermético ou inaudível.

Mount Analogue

John Zorn

Tzadik

US$ 19

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: