A Divina Comédia de Dante

16 fev

Traduzir um dos poemas épicos mais emblemáticos do período medieval para quadrinhos. Esse desafio não pesou tanto sobre os ombros de Seymour Chwast, em A Divina Comédia de Dante, volume publicado em 2011 pela Quadrinhos na Cia. Apesar de não trazer exuberantes gravuras e pinturas, como tantas que a obra de Dante Alighieri inspirou, a publicação mostra um talentoso autor que conseguiu fazer jus à obra-prima que teve por objeto. Seu sucesso nesta empreitada se deve justamente ao desapego das tradições eruditas ao tentar dar conta da intimidante carga pictórica e da trama fantástica com que teve que lidar.

Na história, o próprio Dante percebe-se em uma “selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada”, quando encontra Virgílio, autor do épico Eneida. Para ajudá-lo a entender onde está e subir o morro que via ao horizonte, o poeta clássico o conduz em uma jornada pelos nove círculos do Inferno, pela Ilha do Purgatório e pelos diferentes céus que constituem o Paraíso. Pelo caminho, ele conhecerá o destino dos humanos, incluindo o de personalidades e amigos já falecidos, e terá a oportunidade não só de conhecer todos os planos de existência após a morte, mas também buscar sua própria redenção.

Ler os três tomos de A Divina Comédia é um processo árido. Seus cem cantos, todos formados por tercetos (referentes à Santíssima Trindade), exigem análise e leitura cuidadosa, dificilmente sendo apreciados ao acaso. Se não há certeza sobre a disposição para se debruçar sobre estes livros, a versão de Chwast serve justamente como uma prévia, sendo uma estimulante porta de entrada para o original – algo que está entre os maiores méritos de qualquer adaptação e que a graphic novel consegue alcançar.

É claro, aos que estiverem acostumados com as gravuras precisas e complexas de Gustave Doré, mais comumente associadas ao livro, o traço de Chwast parecerá uma piada de mau gosto. Sua simplicidade técnica faz Persépolis, de Marjane Satrapi, parecer um esforço meticuloso de ilustração. No texto, o autor também não faz cerimônia e às vezes transforma um canto inteiro, com suas várias dezenas de tercetos, em uma frase só, acompanhada quem sabe por três figuras expostas com aparente desdém.

Mas essa impressão de desleixo só resiste à primeira folheada. Depois torna-se evidente que é justamente nisso que repousa o principal triunfo de Chwast. Sua tática foi aliar o apelo de seu ofício natural, como designer, à despretensão erudita, assim tentando menos traduzir o longo poema para a nona arte do que fazer uma representação mais direta e introdutória ao épico.

A linguagem enxuta torna a obra muito mais palpável, além de arejá-la com frases familiares ao leitor. É verdade que os diálogos muitas vezes soam didáticos demais, não alcançando a acidez que o aspecto visual da obra sugere. Todavia, é uma opção compreensível: ela garante a dinâmica e agilidade que o volume pede e sua diversidade acaba por compensar esta pequena falha.A arte, que combina tipografia personalizada com desenhos rudimentares, alcança sofisticação gráfica eficiente e admirável. Em alguns trechos, a sensação visual é de que Chwast constrói arabescos enquanto funde personagens e paisagens. Por vezes, seu estilo é tão elementar que beira o rupestre, mas é também moderno devido ao criativo uso que faz de seu repertório imagético. Esse processo é auxiliado por sua engenhosidade ao utilizar o espaço em cada página, optando muitas vezes pelo meta-requadro (ilustração de página inteira), mostrando uso coerente da linguagem escolhida e passando impressão marcante e empolgante de cada círculo, cornija e céu. O destaque fica para sua caracterização de Lúcifer, com três bigodes, chapéu e gravata-borboleta.

Algo que incomoda no título é o relaxamento do autor conforme a peregrinação do protagonista se aproxima do fim. É notável que o Inferno de Dante sempre chamou mais atenção e isso faz parte da construção do épico, na medida em que ele é genuinamente religioso e deseja que as pessoas, por sua vez, fiquem genuinamente assustadas – o que uma boa obra medieval não faz questão de suprimir. Ainda assim, mais espaço poderia ter sido dado aos cantos relativos ao Paraíso, para não haver essa impressão de pressa para finalizar seu trabalho.

Contudo, ao se permitir uma série de liberdades estéticas, Chwast mais acerta do que erra em A Divina Comédia de Dante, garantindo personalidade à sua livre adaptação. Um dos aspectos interessantes é ver situações tipicamente metafóricas acompanhadas de breves interpretações no contexto do quadro. É o caso do 32º canto do Purgatório, onde se fala da “árvore do conhecimento sendo atacada por uma águia, uma raposa e um dragão”. A metáfora, que é descrita no livro de forma hermética e rebuscada, aqui é dissecada como uma investida do império romano, dos heréticos e do Satanás contra a igreja.

Outro detalhe que releva a identidade de Chwast é sua opção corajosa por adotar deslocamentos temporais e anacronismos ao representar elementos contidos na trama. Apesar da história datar do começo do século XIV, Dante e Virgílio lembram mais Sherlock e Watson por suas indumentárias, ou até mesmo investigadores de um filme noir. Somado a isso, a guerra é simbolizada por tanques e Adão toma café e fuma cigarros enquanto é questionado por Dante. São recursos estéticos pelos quais Chwast consegue fazer uma obra com grande potencial para deliciar os leitores e criar novos adeptos do legado de Alighieri – sendo acessível, mas jamais leviano.

A Divina Comédia de Dante

Seymour Chwast / Dante Alighieri

Quadrinhos na Cia.

R$ 33

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: