The Walking Dead

15 fev

Muita expectativa precedeu a estreia de The Walking Dead. A ideia empolgava, mas ninguém sabia se realmente um seriado com mortos-vivos ia dar certo. Após hiato de algumas semanas, no meio da segunda temporada, creio que essa dúvida permanece. Problemas de bastidores e alterações da história original dos quadrinhos prejudicaram a regularidade da série, mesmo que ela tenha atingido ótimos picos de qualidade. O lado bom é que o retorno nesta semana foi um desses picos.

Como de praxe em histórias de zumbi, a razão do holocausto não é explicada no início de The Walking Dead. Há lugar apenas para diversas teorias e informações desencontradas. Mais perdido ainda fica o protagonista Rick, policial que permanece hospitalizado por semanas e acorda em seu quarto apenas para ver que o prédio onde foi internado estava depredado e abandonado. Enquanto deixa o edifício com dificuldade e sem entender o que aconteceu, ele percebe muitos mortos e… alguns nem tanto. Com ajuda dos poucos sobreviventes em seu caminho, ele busca pistas sobre o paradeiro de sua esposa e seu filho.

Houve receio, durante essa segunda temporada, que o seriado pudesse sofrer do mesmo mal que Heroes: troca de roteiristas, queda brusca de qualidade e cancelamento inevitável diante da audiência risível. No entanto, em The Walking Dead, o imbróglio começou ainda pior: o afastado foi o showrunner Frank Darabont. Pelo que li, no que dependesse dele, os sete primeiro episódios desta temporada não se passariam apenas numa fazenda – o que pareceu enrolação em alguns momentos após o pique frenético do primeiro arco – e diversas cenas filmadas nem poderiam ser aproveitadas.

Darabont é mais conhecido por suas adaptações de histórias de Stephen King para o cinema. Um Sonho de Liberdade, de 1994, permanece no topo do ranking do IMDB (batendo O Poderoso Chefão e Pulp Fiction, por exemplo) e À Espera de um Milagre, com Tom Hanks, também foi bem prestigiado. O Nevoeiro fez boa bilheteria, mas mesmo sendo uma filme de horror, gênero que costuma estar mais associado a King, não foi tão bem aceito quanto os outros. É uma pena, eu considero uma das análises mais coerentes sobre o fanatismo religioso e como ele é construído.

É interessante como a foto acima parece irmã de muitas fotos de The Walking Dead. Penso que O Nevoeiro tem três coisas em comum com o seriado: a sobrevivência de personagens num mundo apocalíptico, os dilemas morais gerados por essa condição e… os atores. Só na foto acima, aparecem Jeffrey DeMunn e Laurie Holden, duas das figuras principais no elenco da série. Fora eles, Melissa Suzanne McBride, a mãe de Sophia na história, também está no filme – e curiosamente em situação análoga à do programa: em busca de sua filha. No vídeo a seguir, em que os três aparecem, ela explica que tem que voltar para casa porque sua filha às vezes esquece de cuidar de seu irmão mais novo.

Discussões sobre aborto e eutanásia foram motivadas pelo seriado, da mesma forma que cenas capitais também dividiram tanto telespectadores quanto personagens. A atitude de Shane com Otis (algo que vi em memes apelidado de “Shane Move”), a incerteza quanto a continuar a busca por Sophia e o limite entre resgate solidário e distância preventiva na fazenda estão entre os momentos memoráveis. É quase vital que uma história de zumbis consiga carregar esse tipo de discussão, já que o maior clássico do gênero, A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero, também teve essa carga. Lançado em 1968 no circuito alternativo norte-americano, ele discute temas como a credibilidade de telejornais em situações limítrofes e a revolução causada por uma nova sociedade marginal que sofre repressão pelas autoridades (pensando na época, soa familiar?). Para completar o mal-estar em sua crítica, o diretor ainda teve a coragem de colocar o herói, negro, sendo baleado por outro humano, ironicamente não morrendo pelos mortos-vivos. Detalhe: Martin Luther King tinha sido assassinado com um tiro um semestre antes do lançamento. O longa pode ser conferido integralmente no Youtube.

Apesar de The Walking Dead ter algumas atuações podres e alguns furos (coisas que também não podiam faltar em uma história de zumbi), o seriado brilha por seu ritmo, muito adequado para gerar suspense quase em tempo integral. Também é notável sua opção por destacar os problemas de estar em um mundo devastado e em uma sociedade que se dissolve mais a cada dia, acima da pura exibição da matança de mortos-vivos (que também está presente de forma satisfatória). Tudo indica que, mesmo sem Darabont, o show está engrenando de novo e mantendo suas virtudes.

The Walking Dead

Frank Darabont / Glen Mazzara / Robert Kirkman

AMC

Todas terças-feiras às 22h na Fox

Uma resposta to “The Walking Dead”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Parábola « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 2, 2012

    […] Surfista são vistos rapidamente como heresias. Não querendo me repetir, mas assim como no filme O Nevoeiro, no qual basta uma estranha neblina e rumores desencontrados para que o pânico se instaure e […]

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