A Invenção de Hugo Cabret

14 fev

Fiquei surpreso quando cheguei ao Frei Caneca Unibanco Arteplex no último sábado, meia hora antes da pré-estreia de A Invenção de Hugo Cabret, e não vi fila alguma formada. Um dos longas com mais chances de ganhar o Oscar, dirigido por Martin Scorsese e com homenagem a Méliès… Sem fila? Alguns títulos inexpressivos da Mostra Internacional de Cinema contam com aglomerados à sua espera e justo esse filme estaria abandonado, tal como o autômato da história?

Felizmente, essa era apenas mais uma ilusão nessa ocasião cheia de magia e, até o início da sessão, a sala já acumulava bom público. Todos puderam ver, munidos de seus óculos 3D, mais um longa notável de Scorsese, que presta homenagem tardia, mas muito justa e essencial, ao cineasta Georges Méliès – além de fazer reverência à era do cinema mudo, mostrando diversas cenas de obras dessa época. Viagem à Lua, de 1902, é o curta-chave do filme.

Há muitos anos, vi no Telecine Cult uma coletânea de curtas do Méliès. Eles eram apresentados pela neta do diretor e sonorizados por um pianista ao vivo (como na época em que foram lançados). Os quinze filmes evidenciavam o quanto Méliès era um gênio, provavelmente o primeiro diretor de cinema que merecia esse título. Buscando enriquecer seus truques como ilusionista, ele utilizou aquela nova linguagem para exponencializar sua capacidade de surpreender as pessoas com o impossível. Muito prematuramente, Méliès soube usar um cuidadoso trabalho manual com os negativos para fazer sua cabeça crescer, se multiplicar e até ser arremessada em uma pauta musical para virar nota. Também fez viagens à lua, ao inferno, ao pólo norte e a todos locais que sua mente imaginava. Confira o impressionante Um Homem de Cabeças, de 1898 (em versão tirada de Uma Sessão Méliès, coletânea supracitada).

Talvez a maior virtude de Hugo seja esse tributo, reconstituindo os dias de filmagem de Méliès, seu primeiro contato com o cinema e suas frases de efeito que relacionavam cinema e sonhos. Mas é apenas uma das virtudes. A longa introdução deixa clara sua intenção de evocar aquela mesma magia do passado. Com travellings rapidíssimos e mirabolantes, Scorsese apresenta ao espectador todo o cotidiano do jovem Hugo Cabret, que vive sozinho tentando reconstruir um autômato deixado por seu falecido pai, enquanto cuida dos relógios de uma estação de trem. Aliás, uma escolha de local muito pertinente, sendo que um dos causos clássicos da história do cinema, e que é deliciosamente retratado no filme, se dá justamente em uma sessão do curta L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, de 1895. Reza a lenda que o público presente na ocasião, ainda sem costume de ver cinema, teria se desesperado e fugido ao ver um trem vindo em sua direção.

As atuações em Hugo também são destacadas, em especial a de Ben Kingsley (Gandhi, A Lista de Schindler, Casa de Areia e Névoa), que faz encarnação honrosa de Méliès. Chloe Moretz (Kick-Ass, Deixe-me Entrar, Texas Killing Fields) também está ótima, convencendo em seus sorrisos ingênuos e no desejo de participar de alguma aventura, após ler tantas nos livros que ama. Uma das cenas mais memoráveis do longa mostra ela e Hugo (interpretado por Asa Butterfield) entrando escondidos em um cinema que exibe O Homem Mosca, comédia de 1923 estrelada por Harold Lloyd. Li que a dupla foi “obrigada” por Scorsese a assistir diversos filmes mudos antes das gravações, mas suas expressões de deslumbramento e diversão diante da telona passam sinceridade ao espectador, que pode também estar vendo todas aquelas cenas pela primeira vez e se divertindo da mesma forma.

Hugo tem alguns bons adversários no caminho para ganhar o Oscar de Melhor Filme neste ano. As semelhanças com O Artista devem ser seu maior inimigo, podendo pulverizar votos entre membros da Academia que sejam entusiastas do tema. Particularmente, acho que Meia Noite em Paris ou A Árvore da Vida mereciam levar este ano, mas não acredito que algum dos dois tenha grandes chances na premiação. Esse pode não ser o ano dele (de novo), mas uma estatueta a mais para o Scorsese após esse excelente trabalho não faria mal a ninguém.

A Invenção de Hugo Cabret

Martin Scorsese

Paramount

Estreia nacional nesta sexta-feira (17)

Uma resposta to “A Invenção de Hugo Cabret”

  1. Adriano Garrett fevereiro 15, 2012 às 4:50 pm #

    Interessante essa ideia do deslumbramento que também pode ser compartilhado pelo espectador. Acho que essa é a grande sacada do filme: resgatar o encanto de ir ao cinema, algo já banalizado nos dias de hoje (e pensar que já vi gente falando no celular e twittando ao mesmo tempo em que assiste a um filme…). A cena em que o Meliés acorda e encontra os outros assistindo à Viagem à Lua é fundamental: basta o som do projetor para que ele seja atraído até ali. É algo instintivo, inexplicável, que se tornou mais difícil de se ter depois de tantos anos de cinema (e outras mídias), mas que ainda é possível…

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