Sun Ra Arkestra (Sesc Pompeia, 12/2/12)

13 fev

Para muitos, ouvir jazz de vanguarda é uma experiência indigesta a ser evitada. Acordes dissonantes, solos simultâneos, desapego ocasional com andamento e estrutura, jams longuíssimas. Discos consagrados de fusion e free jazz, feitos por gigantes como Miles Davis e John Coltrane, seguem essa fórmula e, por melhor que os músicos sejam, encarar uma escuta integral desses álbuns é uma tarefa hercúlea. Talvez para sanar esse problema, o universo tenha enviado o compositor Sun Ra diretamente de Saturno (de onde ele jurava vir) para o Alabama – além de mandar sua orquestra para São Paulo neste fim de semana.

A Sun Ra Arkestra, que dá continuidade ao trabalho de seu fundador (falecido em 1993), fez duas apresentações na choperia do Sesc Pompeia, para uma plateia que pôde reagir de diversas maneiras: dançando, aplaudindo solos, rindo e pedindo mais. Se o jazz de ponta normalmente causa perplexidade por ser hermético e/ou aleatório, no caso da SRA essa surpresa se origina mais nos trajes egípcios/extraterrestres, na descontração de seus membros e na soma de qualidade técnica com eficiência performática.

Parte do segredo do grupo está na utilização de elementos típicos do jazz “tradicional” (e aqui uso esse adjetivo me referindo ao clássico, ao bebop, ao cool, aos gêneros que precederam outros que permanecem controversos após meio século). Oito integrantes tocam instrumentos de sopro, conseguindo entoar vigorosamente temas cativantes que são acompanhados por piano, baixo, guitarra, violoncelo, bateria e percussão. O coletivo sabe casar temas simpáticos com todas aquelas características espinhosas citadas no primeiro parágrafo, que poderiam gerar desespero caso estivessem sozinhas – mas, nesse caso, geram um produto final que é excêntrico apenas na medida em que também é agradável. Não só esse sincretismo, mas também o afrofuturismo, o vestuário bizarro e as composições longas e bem humoradas podem lembrar muito o que George Clinton faz com seu Parliament Funkadelic.

Hoje em dia, a Sun Ra Arkestra é comandada por seu terceiro líder, o veterano Marshall Allen. Além de chamar atenção coordenando a banda e tocando seu sax alto de forma peculiar, ele se faz mais notável ainda quando toca seu EVI (Electronic Valve Instrument), um curioso instrumento de sopro com som sintético e frequências moduladas por uma válvula. Ouça a seguir um solo lisérgico de EVI feito por Marshall em show da Arkestra no ano passado.

O som do EVI tem tudo a ver com o conjunto e sua mistura. Diversas músicas deixaram a plateia em transe por seu caos, enquanto outras a emocionaram por sua ternura, motivando até casais a dançarem devagar e coladinhos no lugar. Aliás, falando na choperia, sua escolha em detrimento do teatro parecia uma imbecilidade, tendo em vista que a banda tem mais de dez membros e o palco não é muito grande. Todavia, no fim, a proximidade com os músicos, possível somente nesse ambiente, permitiu que a experiência fosse ainda mais memorável. Por mais que eles sejam alienígenas, foram noites em que fizemos contato.

Sun Ra Arkestra

Choperia Sesc Pompeia

Nublu Jazz Festival

R$32 (inteira) [aguardando próxima abdução]

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