Limbo

11 fev

É raro achar jogos que consigam contar uma boa história sem que haja um diálogo sequer. A tarefa pode adquirir traços mais de desafio que de alívio para o designer, ainda mais nas plataformas atuais, repletas de recursos. O silêncio e a escuridão são alguns dos grandes aliados que ajudam Limbo a fortalecer seu mistério dentro dessa condição, tornando-o um dos grandes títulos dos últimos anos.

Embora exista uma sinopse forçada para Limbo, a verdade é que ele não tem real compromisso com nenhuma explicação. O garotinho que protagoniza o jogo acorda no meio de uma floresta macabra e inóspita. Aos poucos, ele descobre uma paisagem pós-apocalíptica, infestada de armadilhas e habitada por aranhas gigantes, pequenos vermes e alguns poucos humanos que, em sua maioria, são hostis. Toda essa horda está disposta a dar um fim ao melhor estilo gore para o pobre menino e, se a intenção for pesquisar o potencial Happy Tree Friends da aventura, basta jogá-lo contra serras elétricas, pular de grandes alturas ou deixá-lo ser pego por uma aranha. Por mais que o garoto-silhueta seja simpático e singelo, as mortes pelas quais ele passa são realmente hediondas – e esteja preparado: no caminho para resolver mistérios ou executar soluções, nosso herói certamente morrerá bastante.

Certos aspectos do jogo me fizeram lembrar de ICO, clássico de PS2 que ganhou recentemente versão remasterizada para PS3. A ausência de trilha sonora na maior parte do tempo é um desses aspectos, com sons pontuais e poucos drones em momentos de tensão. O silêncio impera de tal forma que é fácil se habituar ao andamento da história e então tomar um susto de solavanco diante do inesperado. Nesse aspecto, Limbo é um ótimo thriller, embora não mereça ficar limitado a um gênero.

Há em comum também a sensação de estar numa terra cheia de sinais misteriosos, que sugerem um histórico outrora vasto, mas agora perdido e inalcançável. E há a solidão na exploração desse mundo. Nesse aspecto, o título é mais árido que ICO e seu jogo-irmão Shadow of the Colossus, nos quais os heróis ainda têm alguma espécie de companhia. Aqui, o garoto está genuinamente sozinho, de cabo a rabo. Também com relação a Shadow of the Colossus, por mais que existam gigantes em ambos os games, em Limbo nunca o confronto mais difícil se dá com esses seres. O perigo deles muitas vezes é mais sugerido do que evidenciado, à mesma forma do Behemoth no filme O Nevoeiro (2007), que passa por carros com sobreviventes sem nem reconhecer qualquer tipo de ameaça. Em certos casos, talvez seja melhor que essas criaturas sejam mostradas en passant mesmo. Em Shadow of the Colossus, o tratamento desses inimigos é extremamente nobre, e talvez esse seja o único tratamento válido para figuras desse porte.

Quanto aos humanos hostis de Limbo, a comparação que me ocorre é com os Outros do seriado Lost. Parecem nativos ou, no mínimo, pessoas que estão lá por tempo suficiente para se reforçar com armas, construir moradias toscas e se assegurar que recém-chegados não se instalem em sua área. Simultaneamente, há a impressão de que eles não são tão veteranos assim e também estão assombrados pela sensação de que há alguma missão por cumprir. Isso me lembrou os carneiros do jogo Catherine, que se encontram em pesadelos noite após noite e tentam sobreviver escalando pilhas de blocos diabolicamente estruturados.

Ao contrário da maioria dos títulos de PS3, é possível zerar Limbo em poucas horas (tendo perseverança, como indica o troféu ganho após completar o jogo). Mantendo a mente aberta, como sempre é bom em puzzles, é possível que a pessoa empaque apenas em alguns segmentos (Deus, como eu demorei para entender o dos dois contêineres). E tenha em vista que a maior recompensa será sentir a solução de cada etapa, e não necessariamente chegar ao final, cujo conteúdo pode gerar discussões mais complexas. Ao mesmo tempo em que é deslumbrante e poético, pode também decepcionar alguns por parecer, falando bem vulgarmente, “fim de filme europeu”. Não é por acaso que Arnt Jensen (foto), designer, e sua produtora, Playdead, são dinamarqueses. Há margem no final para o mito de Sísifo, tanto quanto há para a resolução, cabendo essa escolha unicamente à interpretação de cada um.

Limbo é tenebroso em sua arte, mas muito claro em sua jogabilidade. A movimentação dos personagens e objetos é bem aceitável e não há grandes dificuldades na manipulação dos elementos em geral. A dificuldade está mais ligada à solução dos puzzles do que à habilidade técnica do jogador – embora ela vá ser requisitada eventualmente. Há replay value pelo clima único do título, que continua instigando mesmo quem sabe a solução de todas fases. Os troféus também são interessantes, ligados principalmente à sobrevivência do personagem e à escolha de caminhos alternativos. Chegando ao final mais de uma vez, fica a vontade de uma continuação – mas talvez seja mais poético que essa história permaneça imaculada em seu final enigmático.

Limbo

Arnt Jensen

Playdead

R$ 30 (PSN)

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