Êxtase de São Francisco com os estigmas

10 fev

No segundo ano da faculdade, o saudoso professor Jorge Paulino, que leciona História da Arte, nos incumbiu de analisar qualquer quadro do acervo do MASP. Que eu lembre, eram poucas as restrições para escolha: não poderia ser contemporâneo e era essencial que fosse figurativo. Após dar uma passada de olho de meia hora nas obras do acervo, tendo que desviar minha atenção do que mais me intrigaria (contemporâneos e abstratos), essa pintura acima, feita por Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido como El Greco, me interessou.

Lembro que minha escolha foi motivada sobretudo pelo crânio repousando sobre livros, no canto inferior esquerdo. Na época, fazia poucas semanas que tinha monitorado uma aula de Leandro Karnal na Casa do Saber, onde eu estava trabalhando, e era a primeira ou segunda aula de seu curso sobre os sete pecados capitais. Após falar sobre história e evolução de determinado pecado, ele apresentava obras, em diversos tipos de arte, que contivessem aquele conceito proibido. Ao falar da vaidade, foram mostrados diversos quadros com caveiras, um dos grandes ícones da arte vanitas, que tinha como objetivo central afastar o humano deste pecado. Não importava quantas riquezas, aventuras e aprendizados tivéssemos – dizia a lição -, na morte, implacável, éramos todos iguais. Mesmo obras contemporâneas ainda são rotuladas como vanitas de vez em quando, como este crânio de diamantes feito por Damien Hirst.

Na interpretação, destaquei o diálogo entre os três componentes principais da tela (São Francisco, a caveira e o raio) como objeto central da obra. Fiz uma descrição literal de cada um deles, o que não é difícil mapeando o quadro e tendo paciência, às vezes de horas, para apreciar cada detalhe em cada setor, como o JP bem ensinou. Alguns dos detalhes que me chamaram atenção, agora ao reler, estão ligados à expressividade excessiva do crânio, de certa forma até mais emocionado que o cadavérico São Francisco, e à sinuosidade na mão direita do santo, quase etérea, cujo flamular me fez até pensar no impressionismo (comparação que utilizei no trabalho me perdoando de antemão pela leviandade e anacronismo). Abaixo, coloco um exemplo de arte vanitas no impressionismo, em quadro de Paul Cézanne.

Apesar de não ser entusiasta da teoria da aura, desenvolvida por Walter Benjamin (foto abaixo), vou ter que defendê-la aqui. No ensaio em que propôs essa ideia, Benjamin questiona o valor de conhecer uma obra apenas por sua reprodução técnica em detrimento de vê-la pessoalmente – algo que já era tendência na época (1936). No caso de Êxtase de São Francisco com os estigmas, existem detalhes interessantes que são mais difíceis de perceber, ou imperceptíveis de fato, na imagem computadorizada. É um estímulo a mais para ir ao museu e conferir que a caveira aparenta ter uma espécie de olho em sua órbita (cavidade óssea onde ficam alojados os globos oculares). Diga-se de passagem, um olho muito mais humano que os de São Francisco, que parecem estar cegos, quase vazados, olhando para a luz divina.

Parte do que atrai no quadro é seu “equilíbrio sinuoso”. De certa forma, há um eixo diagonal composto pelo raio e pelo santo, que contrapõe a escuridão do canto superior direito do quadro e a claridade do canto oposto. Esse corte também ajuda a conferir noção de movimento ao São Francisco que, graças à escuridão que esconde o início de sua batina, parece estar ascendendo à luz, ao céu. É curioso também notar que o único raio expressivo no canto superior direito está justamente incidindo sobre a abóbada craniana de São Francisco, o que também sugere iluminação divina. O santo, que olha para cima, parece estar aqui muito mais alinhado com a condição divina dos raios do que com a condição humana da caveira, que olha para baixo. Neste ângulo, onde surge a contraposição entre revelação etérea e efemeridade carnal, está o diálogo clássico entre o humano e o divino, muito comum na pintura das eras medieval e moderna.

El Greco pintou a maior parte de suas obras-primas em Toledo, na Espanha, após ter aperfeiçoado sua arte em Veneza, na Itália – mas ficou conhecido assim por ter nascido na Grécia. Ele pintou o quadro no fim do século XVI, quase quatro séculos após a cena retratada. Conta a história que São Francisco teria percebido seus estigmas em 1224, vários anos após sua primeira iluminação, na qual Cristo teria falado com ele do alto de um crucifixo. El Greco fez ao menos cinco outras pinturas do frade beatificado, como essa a seguir, chamada apenas de Êxtase de São Francisco.

Êxtase de São Francisco com os estigmas está longe de ser uma das obras mais notáveis do MASP. O bom desse exercício foi perceber o quanto telas aparentemente simples ou comuns podem carregar detalhes preciosos que podem valorizá-las muito. Às vezes, ainda penso em fazer, apenas por diversão, esse tipo de observação mais atenta e com pesquisa posterior, sobre As Tentações de Santo Antão, uma das magníficas telas de Hieronymus Bosch que estão no MASP. Ela não chega a ser um Jardim das Delícias, tríptico de Bosch que talvez mereça uma existência de estudo, interpretação e deleite, mas certamente pode prender a atenção por um bom tempo.

Êxtase de São Francisco com os estigmas

El Greco

MASP (Acervo)

R$15 (inteira) de quarta a domingo / Grátis às terças-feiras

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