Shinboru

9 fev

O cinema japonês se superou em criatividade nos últimos anos. Diretores como Shinya Tsukamoto (Serpente de Junho), Takeshi Kitano (Glória ao Cineasta), Takashi Miike (Sukiyaki Western Django),  Hirozaku Kore Eda (Air Doll) e Sang Il Lee (The Nose) são alguns dos bons representantes dessa tendência – isso para não citar o pessoal de anime, como Hayao Miyazaki (A Viagem de Chihiro) e Satoshi Kon (Paprika). Mesmo com tantos nomes, estou convencido de que a obra mais intrigante dessa safra é Shinboru (Symbol/Símbolo), do novato Hitoshi Matsumoto.

Neste filme de 2009, duas histórias são intercaladas e exibidas sem conexão aparente. De um lado, Escargot Man, um profissional mexicano de lucha libre, se prepara para um confronto árduo contra Tequila Joe. Do outro, um japonês trajado apenas com pijama de bolinhas acorda dentro de uma sala branca sem saída. Este segmento, protagonizado pelo próprio diretor, acaba sendo mais desenvolvido em função de seu mistério: o aposento tem suas paredes forradas com pintinhos e saquinhos de pequenos anjos. Não bastando isso, a cada pintinho que o confuso cativo aperta, um novo objeto cai na sala (megafones, mangás, sushis, etc) ou algum novo evento ocorre (a passagem de um africano velocista, uma sessão de flatos divinos, entre outros).

Alternando as duas histórias, Matsumoto faz com que o espectador fique submerso por mais de uma hora e meia em um mar de estranheza. É difícil deduzir como o homem do pijama foi parar nesse retângulo branco (algo que, em certos momentos, lembra levemente a angústia do filme Cubo), por que cada anjo tocado fornece um objeto diferente ou até a própria razão das duas histórias estarem no mesmo longa, aparentemente não havendo nenhuma relação sequer possível entre elas.

Escandalosamente aberto a interpretações, Shinboru tem algumas possíveis chaves que podem nortear tentativas de esclarecimento. A mais evidente é a separação do segmento principal em “Aprendizado”, “Prática” e “Futuro”, sendo que há mudanças claras para o protagonista entre essas etapas. Outro detalhe importante é o significado do título. Não sou grande entendido de semiótica, mas pelo pouco que estudei, imaginei que a acepção usada nesse campo de estudo para a palavra “símbolo” poderia encaixar bem aqui. Trocando em miúdos, enquanto um ícone é uma representação mais literal de algo (o desenho de um tigre) e o índice é uma sugestão desse algo (uma pegada de tigre), o símbolo pressupõe o entendimento de um código e pode ter relação completamente arbitrária com o que representa (a palavra “tigre”). Arbitrariedade essa que está muito presente na relação entre cada pintinho e o objeto a que ele está ligado. Mas essa é só uma possibilidade de leitura e que pode ser desafiada, já que faz muito sentido apenas com a primeira parte do filme (“Aprendizado”).

A primeira vez que ouvi falar em Hitoshi Matsumoto foi quando a SP Terror, mostra especializada no gênero, trouxe Big Man Japan, seu longa de estreia. Mesmo chamando atenção pelas cenas em CG (abundantes nos trailers e escassas no filme), o título ainda é bem fraco perto do que foi atingido em Shinboru, que foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2010. O terceiro longa do diretor, Saya Zamurai, infelizmente ainda não foi exibido por aqui.

Tendo paciência (sempre útil para conhecer grandes diretores), Shinboru pode se tornar facilmente uma das experiências mais singulares e marcantes na vida de um cinéfilo. Desde o plano inicial, aberto e demorado, de uma caminhonete vindo dum longínquo horizonte, passando pelos momentos cômicos de Escargot Man e do japonês (Matsumoto parece ter visto muito Chaves e Trapalhões para criar seu personagem) até chegar nos atos de wrestling e estratégias mirabolantes para sair da sala, o longa é único – mesmo para entusiastas de diretores experimentais. Se passar por ele em alguma mostra, não hesite, não duvide.

Shinboru

Hitoshi Matsumoto

Yoshimoto Creative Agency

R$?😦

Uma resposta to “Shinboru”

  1. Rafael outubro 22, 2012 às 3:04 pm #

    Onde consigo assistir esse filme ??

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