Kisses on the Bottom

7 fev

Embora eu tenha ouvido todos os álbuns de estúdio dos Beatles (pelo menos os ingleses), nunca tinha parado para ouvir um álbum solo do Paul McCartney inteiro. Em discussões, costumo defendê-lo como o melhor beatle por preferir seu estilo de tocar, cantar e compor.  Entretanto, tive medo de iniciar a apreciação de seu trabalho independente por Kisses on the Bottom, lançado esta semana. Ouvi que era um disco “de velho”, aquele típico álbum do roqueiro no crepúsculo querendo enganar com jazz suave. Me passaram pela cabeça tanto Iggy Pop quanto Caetano Veloso como casos parecidos e o receio estava completo.

Entretanto, a primeira faixa do álbum aniquilou de cara meu lado mais blue meanie. I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter foi sucesso na década de 1930 nas mãos de Fats Waller, pianista de jazz homenageado no brilhante filme Rebobine, Por Favor, de Michel Gondry. A canção dá o tom do que virá a seguir: muito jazz clássico delicioso de se ouvir. Daquele tipo que, sem perceber, se cantarola junto mesmo faltando minutos para a faixa terminar. Entre os compositores e letristas presentes no álbum, estão diversos representantes do começo do século passado, como Johnny Mercer, Ray Henderson e Mort Dixon.

Caso os créditos do Allmusic estejam certos, há um grande capricho neste álbum: além de compor só duas canções, Paul apenas canta. A princípio, soa como desperdício, mas ao checar a equipe de músicos recrutada para o álbum, a opção torna-se mais compreensível. Eric Clapton, Diana Krall, Stevie Wonder, Vinnie Colaiuta e John Pizzarelli são alguns dos ilustres convidados que podem ser ouvidos na nova gravação do mais fabuloso sir de todos.

Este é o segundo álbum de Paul desvinculado da EMI e suas subsidiárias. Foi lançado pela Hear Music, gravadora que pertence à rede de cafeterias Starbucks e tem álbuns de Joni Mitchell, James Taylor e Elvis Costello em seu currículo. Aliás, este último é dos raros roqueiros que conseguem flertar bem com o jazz. Casado com a Diana Krall, Costello fez uma das mais belas versões de I’m a Fool to Want You ao lado de Chet Baker.

A avaliação que faço de Kisses on the Bottom é extremamente positiva. Por mais que seja easy listening e só tenha duas canções originais, é difícil menosprezá-lo em função disso. Algo que salta aos ouvidos é a sintonia fina entre a simplicidade dessas canções de jazz e as canções dos Beatles, sempre redondas e sintetizando na medida certa as ideias sobre o amor idealizado. A interpretação vocal de Paul também mantém-se doce e elegante, mas não se limita a isso. Ele consegue se adaptar ao estilo prosódico típico do jazz, encaixando as letras de forma que elas deslizem e ornem os arranjos singelos a que pertencem. Os cacoetes dos cantores do gênero estão lá, mas não de forma caricata, o que ajuda o álbum a ter feições honestas.

Mencionei Caetano e Iggy no começo, mas um cara que adoro e não sinto que teve felicidade fazendo processo semelhante foi Brian Wilson, dos Beach Boys, quando reinterpretou canções de Gershwin. Não deixou de ser uma boa tentativa, mas não há grande deleite como nesse, que soa como um álbum de Paul e não apenas um experimento, ou pior, um passatempo excêntrico. Outro que tem sido pior ainda em fazer reinterpretações é Peter Gabriel, que no álbum Scratch My Back fez doze covers sorumbáticas com sua voz em registro grave e acompanhamentos insossos, alcançando apenas a chatice e não a expressividade desejada.

Em época de Rebecca Black e Michel Teló, Kisses on the Bottom traz boa música que gruda na cabeça instantaneamente – mas sem culpa. Esse álbum não deixa de ser como a discografia dos Beatles, onde você encontra o que há de mais ingênuo, mas também o que há de mais refinado, e faz esse caminho com a certeza de uma boa escuta. Sem conservar expectativas de Beatles ou Wings, há grandes possibilidades de terminar o álbum satisfeito – e, quem sabe, até emocionado. O fechamento do álbum se dá com Only Our Hearts, uma das músicas compostas por Paul, e que conta com um memorável solo de gaita feito por Stevie Wonder.

Kisses on the Bottom

Paul McCartney

Hear Music

R$ 30 (CD) / Grátis para audição por streaming no site NPR

Uma resposta to “Kisses on the Bottom”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Notícias (10 a 16 de março) « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 16, 2012

    […] 10) Paul McCartney deve se apresentar novamente no Brasil ainda este ano. Sua turnê incluirá duas passagens por Recife e uma por Florianópolis. É provável que uma data em Brasília também seja marcada, mas não há previsão para shows no Rio ou em São Paulo. Atualmente, Paul divulga seu álbum mais recente Kisses on the Bottom. […]

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