A Casta dos Metabarões

6 fev

Lembro quando vi essa página no meio da primeira Heavy Metal nacional. A composição dos quadros, a ausência de balões, a “iluminação” na medida, pai e filho num ritual sangrento. Tudo parecia refinado demais para um leitor de Marvel e DC com seus nove anos. No entanto, o avô Paulo tinha gosto por comprar os gibis que seu neto quisesse, deixando escapar até aqueles que pudessem conter histórias de ficção-científica que flertavam vigorosamente com pornografia – algo comum na Heavy Metal (ou Métal Hurlant, como era originalmente conhecida). É o caso da neo-Barbarella hardcore Druuna, por exemplo. Certamente suas histórias fizeram a alegria de muitos pré-adolescentes que iam buscar Capitão América com o tio e acabavam trazendo um exemplar desse magazine para casa.

Apesar do saliente apelo hormonal de Druuna e a exuberância visual que forrava toda a publicação, com suas quatro ou cinco histórias feitas por diferentes artistas europeus, o que permaneceu na minha memória foi a página ao topo deste post. Ela pertence ao segmento A Casta dos Metabarões, que só fui ler integralmente agora, quase 20 anos depois desse primeiro contato. Felizmente, entre 2009 e 2011, a Devir traduziu e publicou os quatro tomos da série no Brasil, tornando essa tarefa mais viável.

Como toda grande saga cósmica, A Casta dos Metabarões empolga com suas naves gigantescas e hordas de seres esquisitos. Capitaneadas por heroicos personagens humanoides, batalhas por territórios e objetos miraculosos deliciam os olhos do leitor, enquanto tornam-se apenas pano de fundo para romances tempestuosos e dilemas morais. Ainda assim, essa história não se limita a uma mera fórmula e tem poucas chances de virar filme ou seriado devido a alguns de seus elementos incomuns e pouco vendáveis, idealizados por Alexandro Jodorowsky e materializados por Juan Giménez.

Na trama, Othon Von Salza recebe o inédito título de metabarão, após provar ser o maior guerreiro da galáxia. Seu caminho até obter tal honra foi permeado por mortes de todos seus entes-queridos, incluindo seu filho e sua amada. Diversas partes de seu corpo tiveram que ser substituídas por implantes cibernéticos – deixando-o também incapaz de perpetuar sua linhagem. Como parte da recompensa por seus feitos, as maiores autoridades do universo decidem enviar a misteriosa Honorata ao seu encontro. Após sua chegada, ela explica que tem o dom necessário para conceber um filho com Othon, necessitando apenas a simples inserção de uma gota de sangue em seu organismo. Com este milagre, nasce Aghnar, que está fadado a aprender tudo com seu pai para poder matá-lo e, de forma honrosa, tornar-se o novo metabarão.

As cinco gerações da casta, que compõem a obra, poderiam competir de igual para igual não somente em suas fantásticas habilidades bélicas, mas também em peculiaridades insólitas. Ao longo dos volumes, filhos sobrevivem sem cabeça, gêmeos fundem-se em um ser hermafrodita e bebês são capazes de executar alguns dos seres mais poderosos do universo com poucos meses de vida. O que todos carregam em comum é a sina de matar o próprio pai para só então serem reconhecidos como os mais capacitados assassinos vivos, cada um a seu tempo.

A série foi publicada entre 1992 e 2003 pela Les Humanoïdes Associés, editora francesa responsável pela Heavy Metal e pelo patrocínio de uma geração talentosa de quadrinistas, tais como Phillipe Druillet, Enki Bilal e Richard Corben. O famoso ilustrador Moebius, um dos fundadores da empresa, foi responsável ao lado de Jodorowsky por O Incal, série que inspirou a criação de A Casta dos Metabarões (além de influenciar o filme O Quinto Elemento) e na qual aparece pela primeira vez o metabarão Sem Nome, último representante da famigerada linhagem.

Embora não seja conhecido popularmente, Jodorowsky dirigiu clássicos do cinema underground. O mais famoso é El Topo, um faroeste que era exibido apenas em sessões da meia-noite no começo dos anos 1970. Na época, o cineasta esteve bem próximo de adaptar o clássico sci-fi Duna ao lado de um time dos sonhos, que contava com o ator David Carradine, o artista plástico HR Giger, a banda Pink Floyd, o roteirista Dan O’Bannon e o pintor Salvador Dali entre os colaboradores. (No fim, não deu certo e virou filme bem contestado nas mãos transcendentais de David Lynch.) O autor, nascido no Chile, também escreveu peças de teatro, como a recentemente encenada em São Paulo As Três Velhas, além de outras graphic novels, como Bórgia, em parceria com o quadrinista Milo Manara. Uma de suas obras mais extremas e excessivas é The Holy Mountain, cuja cena inicial me faz de alguma forma lembrar aquela página inicial de Heavy Metal.

A naturalidade com que o autor encara a sexualidade, o grotesco e o misticismo, em todas as mídias com que trabalha, pode repelir facilmente. Todavia, é difícil acusá-lo do uso gratuito desses elementos, sendo eles fortes conduítes para discussões mais profundas, que ganham visceralidade e sinceridade em tons singulares justamente pela escolha do autor em não reprimi-los. Afortunadamente, isso está presente em A Casta dos Metabarões, uma obra que surpreende a cada tomo por seus rumos criativos e guarda surpresas cada vez maiores até seu fim. Um clássico sci-fi genuinamente à frente de sua época.

A Casta dos Metabarões

Alexandro Jodorowsky & Juan Giménez

Devir

R$ 200 (quatro tomos)

Uma resposta to “A Casta dos Metabarões”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Parábola « Gotas de Chumbo num Patíbulo - março 2, 2012

    […] detalhado, sem esboços ou diálogos, diferente do que tinha visto até então com autores como Jodorowsky e Charlier. Algo incômodo em seus escritos é a autocrítica, muito ferrenha às vezes. Ele […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: