Pegadas noturnas (Dissonetos barrockistas)

19 fev

Há alguns meses, tive o privilégio de entrevistar o escritor Glauco Mattoso. Na ocasião, ele gentilmente me presenteou com dois de seus livros, além de oferecer o encarte do álbum Melopéia, no qual artistas como Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes e Wander Wildner musicaram alguns de seus sonetos. Apesar das formidáveis duas horas que passamos conversando em seu apartamento, só agora fui ler seu Pegadas noturnas. Lançado em 2004, a obra tem cerca de 80 de seus sonetos – porção mínima tendo em vista que o autor acumula mais de cinco mil em seus 60 anos de vida.

“Isso não é poesia que se escreva”, diz o primeiro verso em Pegadas noturnas – e certamente muitas vozes na trajetória do autor. Mais que um poeta maldito, ele se considera “amaldiçoado” pelos infortúnios em sua vida. Destacam-se a cegueira que rendeu sua alcunha (ele é, de fato, glaucomatoso) e a infância permeada por abusos. Mas talvez “infortúnio” não seja a melhor palavra, já que Glauco soube sublimar essas adversidades e utilizar esses elementos em sua literatura “fulminante”, como classifica.

“Soneto é o mundo inteiro em pouco espaço.” O verso faz sentido em Pegadas noturnas, havendo nele espaço para reflexões sobre diferentes partes do globo e suas relações com a submissão. O cárcere, a tortura e a humilhação na China, na África, na Índia, no Japão, são alguns dos temas que Glauco trata de forma nada ortodoxa em seu livro. E o poeta não se limita ao espaço geográfico; diferentes épocas, como a dos monges goliardos, e diferentes credos, com destaque para as três religiões abraâmicas, são abordados.  Passagens bíblicas e contos de punição em Mil e Uma Noites são resgatados, quase sempre com enfoque na maior obsessão do autor: os pés.

Durante a entrevista, Glauco exalou verdadeiro amor pelo pé, sobretudo o masculino, e enquanto símbolo de dominação. Relevou sua decepção pelo excesso de atenção para mãos enquanto há tanta riqueza escondida na anatomia do pé, com seus formatos e detalhes. O poeta desenvolveu sua podolatria nas situações em que era submetido a sentir solas em sua cara e por vezes lambê-las. O que poderia inibir e acabar com a vida de outro, acabou parindo no poeta um processo de erotização e, num termo excelente usado na conversa, uma cinderelização, uma busca pela sensação máxima ao se relacionar com certos tipos de pé.

No entanto, não são apenas os pés que dominam as mãos do autor. “Cagando estava a dama mais formosa”, disse ele sorrindo e citando Bocage naquela tarde. A escatologia na poesia de Glauco pinta todas as épocas como naturalmente depravadas, como devem ter sido, apesar da negligência e pudor com que os livros educativos trataram a história da vida privada. Um verdadeiro punk em traje de gala, ele sabe desferir, de forma elegante, versos fesceninos sobre o cotidiano – que podem revoltar qualquer desavisado. Leia a seguir o soneto Endereçado, que está em dia tanto com forma quanto com agressividade:

Respostas são melhores que perguntas.

Exemplo: “De pensar morreu um burro!”;

algumas têm mais força do que um murro.

Bom mesmo é dar as duas coisas juntas.

 

Pessoas imprudentes são defuntas

mais cedo. Quando posso, ajudo e empurro

cova adentro. Me chamem de casmurro,

mas não tolero críticas bestuntas.

 

Quem me chamar daquilo que não sou

vai ter! Disse o que quis? Agora escuta!

Bem-feito! Ficou puto? Quem mandou?

 

“Bichona”, eu digo, é o verme cuja gruta

é o cu da sua mãe, e que passou

pra sua língua, seu filh0-da-puta!

Aos que não tiverem problemas com palavrões e temas espinhosos, certamente a leitura de Pegadas noturnas será rápida e prazerosa. Apesar de parecerem excessivamente diretas num primeiro momento, cada estrofe guarda novas leituras e ricas descobertas de subtextos e jogos de palavra. Nojento? Para ele, não mais que pizza de banana, lesma gigante ou farofa de uva passa. “Em vez de cheirar rapé, de cheirar cola, de cheirar coca, eu gosto de cheirar chulé.” E como é bom o chulé dessas pegadas noturnas.

Pegadas noturnas (Dissonetos barrockistas)

Glauco Mattoso

Lamparina

R$ 26

Uma resposta to “Pegadas noturnas (Dissonetos barrockistas)”

  1. Ivan fevereiro 21, 2012 at 7:35 pm #

    Augusto dos Anjos underground; menos ciência e mais rua!

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